Migrantes
Por António Galamba
Todos sabemos porque temos de partir, menos aqueles que já habitam o lugar onde chegamos…
Não quis iniciar estas linhas com qualquer mnemónica bíblica. Primeiro porque embora filho de Ourém, fui apadrinhado por tantas outras terras, mais a sul, que não sei bem a qual devo a maioria do ADN cultural que me foi construindo. Depois, porque de pródigo só, talvez, aos olhos dos meus pais. (Os olhos dos pais com filhos migrantes marejam à chegada e à despedida para poderem conter o horizonte e, assim, os filhos sempre perto.) Seja como for, era aqui que queria chegar: estive, por estes dias, em Ourém. Saí da terra da infância para a faculdade. Os dias levaram-me para sul, para as terras do Cante, cada vez mais distante daquelas onde me fiz gente, onde entreguei as primeiras energias às causas que eram, que são, a meu ver, da humanidade.
Não vêm a propósito outras memórias a não ser aquelas que me serão de utilidade para o que aqui me traz. Quando permito espaço à melancolia e olho a juventude, assaltam-me a lembrança os Agostos quentes e a promessa das festas das aldeias do concelho. Festas cheias de gente, de gente que regressava à sua terra para poder matar saudades dos seus e relembrar a necessidade do sacrifício de terem partido. Lembrar que a vida não lhes ofertou outra hipótese para fazer face à fome, aos pés descalços, à ausência de escola e de outros direitos cívicos. Cá eram o exótico que, confesso, a muitos de nós – numa terra então ainda muito longe do que já alcançou – levantavam uma pontinha de ciúme que disfarçávamos escarnecendo na nova pronuncia, no gosto afrancesado, nas grandes bombas em demasia para tão poucas estradas no concelho. Lá fora eram os portugueses, os do Bidonville, os desgraçados para toda a obra e os bodes expiatórios para as arestas que as democracias do pós-guerra ainda não tinham sabido limar.
Antes de avançar peço-vos exercício muito simples, para quem aguentou a sacrifício ler-me até aqui. Troquem a nacionalidade daqueles de quem vos falo. Imaginem, talvez, este texto escrito noutra língua (porventura madrinha primordial do latim que pariu a nossa), imaginem uma destas festas em Daca, Nova Deli, Mogadíscio, Luanda, Rabat, Brasília, Kiev…
Avancemos: estive por estes dias em Ourém. Levei os meus filhos a brincar ao jardim. Era Agosto. Embora já não com a pujança de outrora (as gerações mais novas são já dos sítios que acolheram os seus pais e os seus avós, pouco vêm à terra ancestral) ainda é mês de emigrantes, esplanadas cheias da riqueza que sempre é a diferença. Sentei-me, pedi um café. Das bocas dos filhos daqueles que um dia tiveram de partir, ouvi incrédulo (embora já anestesiado pela repetição quotidiana) o absurdo: as bocas, armas, disparavam balas de ódio sobre todos aqueles que ousaram o mediterrâneo para tentarem Ceuta. Porque vinham violar, roubar, matar, impor-nos a sua religião e obrigar as mulheres ao horror.
Ninguém ali se lembrou que talvez tivessem filhos. Com fome, enfermos, estropiados pelas guerras tantas vezes levadas pelo Ocidente. Percebo agora algumas linhas que li no secundário. Hannah Arendt (1906-1975) profetizava “o Homem massificado será, sobretudo, um Homem sozinho” e, parafraseio, estará apto a cometer actos de extrema crueldade conquanto se sinta apenas a cumprir ordens (que não saberá questionar) sem reflectir sobre as terríveis consequências das suas acções. A falta de empatia, patrocinada e estimulada pelo sistema capitalista que vive da exploração do Homem pelo Homem (se preferirem, como em Thomas Hobbes, Homo homini lupus) resulta no abandono, por cada um de nós, da humanidade que deveríamos transportar. Aos donos de isto tudo, interessa o bode expiatório – na senda do mundo distópico anunciado e lido em Huxley ou em Orwell – baseado na dicotomia primária do eu/outro/nós/eles.
Enquanto estamos entretidos, enquanto explorados nos entretêm virando-nos uns contra os outros, gastam-nos a atenção, as forças, a razão e a vontade de nos juntarmos para pormos termo às causas da nossa miséria. Talvez isto tudo nos exija um esforço que muitos – sufocados pelo custo de vida – não consigam ou não estejam dispostos a fazer. Mas há uma coisa que não deveríamos perder antes de abrir a boca para esventrar com raiva: memória. Quem troca o que tem certo pelo incerto, tal como os das nossas festas de Verão, tem de ter algum motivo. Quem somos nós para condenar?
Correio para o leitor: antonio.galamba@gmail.com


