Ser Médico de Família é “uma dádiva” 

Terça-feira passada foi dia do especialista em Medicina Geral e Familiar, vulgo Médico de Família.  Essa é a especialidade de Helena Barroso, médica de Família em Fátima, há 26 anos. A sua reconhecida capacidade de comunicação foi um dos motivos da sua escolha, para uma conversa com o Notícias de Ourém, que foi tentar saber o que é ser Médico de Família. 

AURÉLIA MADEIRA

Helena Barroso não é apenas uma excelente comunicadora, ela é também uma mulher de um evidente humanismo e empatia. Essas são, aliás, no seu entender, dois requisitos essenciais para um bom desempenho da profissão. 

É que, como nos afirma, o médico de família é aquele que “está na frente do campo de batalha dos utentes”, mas é também, considera, “uma dádiva”. 

“É um médico que está concentrado no utente, ao longo de toda a sua vida.  O utente que está integrado na família, que está integrado numa comunidade, que está integrado numa sociedade e nós acompanhamos, não só, e principalmente, a prevenção da doença, como depois a sua vigilância, ao longo da vida, holisticamente”, ou seja, no seu todo e não apenas em parte. 

“Uma vocação, uma devoção, uma missão” 

“Somos pessoas que não olhamos para o utente apenas na componente física ou da queixa, mas em todo as componentes, seja físico, seja mental…”  É, afirma, “olhar para o doente e saber quem é o pai, quem é a mãe, quem são os filhos, e conhecer todo o contexto familiar”. Não tem dúvidas, por isso, que “isto é uma vocação, uma devoção, uma missão…” 

Claro que isso aumenta a dificuldade porque, sendo os que recebem os primeiros impactos dos doentes, são também os que, até devido à maior confiança com os pacientes, por vezes, têm de se impor e mesmo ralhar. Contudo, não raramente, a especialidade acaba por ser menorizada e menos reconhecida que outras especialidades, apesar de, no início de carreira, todos prestarem serviço hospitalar. Helena Barroso acredita que, se “alguns colegas hospitalares, e claro que não digo todos, muitos também nos reconhecem, mas fizessem 2, 3 anos como médicos de família, reconheciam mais a nossa função”. Até porque, “se nós desempenhamos uma função boa, correta, eficaz, menos utentes acorrem ao serviço de urgência e até se evitam doenças mais complicadas, mais tarde”.  A grande diferença, explica, é que um médico de uma outra especialidade, hospitalar, vê o doente no momento com aquela queixa de trato, depois o doente vai embora e acabou”. Já o médico de família é aquele que acompanha e, “se o doente não melhora, é a nós que recorre sempre, telefonicamente, presencialmente, ou através da família, nós estamos sempre aqui prontos para eles, durante toda a sua vida”.  

Mas, apesar das dificuldades e do cansaço que pode provocar, o trabalho “também tem coisas muito boas”, que passam por “nós vermos os nossos utentes desde pequeninos até crescidos, depois já a ser pais. Eu acho que é muito, muito, muito interessante”. 

É por isso que Helena Barroso diz que “não trocaria esta profissão ou esta especialidade por outra, de maneira nenhuma”.  

Doentes mais irritados e reivindicativos 

Embora Ourém seja um concelho muito difícil no que toca à saúde e aos médicos de família, em Fátima, a falta destes especialistas não é sentida assim.  Contudo, diz a médica, quando se esperava que após a pandemia surgisse uma maior humildade por parte das pessoas, a verdade é que isso não aconteceu e, pelo contrário, tornaram-se mais reivindicativas e exigentes. Helena Barroso diz que isso poderá, eventualmente, dever-se ao medo e exemplifica: “nós, aqui, temos as consultas marcadas e depois temos os contactos diários, a consulta aberta”. Para além disso, “a pessoa tem a oportunidade de mandar um e-mail que é respondido nesse dia ou no dia seguinte. Tem a possibilidade de telefonar e nós retribuímos a chamada. Todas as chamadas são retribuídas pela administrativa. Quando chega a nós, nós ligamos no próprio dia”. Todavia, “às vezes temos doentes que criaram medos tais que ligaram para nós, mandaram um e-mail e muitas vezes nós ligamos vão ao hospital e ligam à saúde 24. Fazem isto tudo. Estão a consumir diversos serviços que, depois, não ficam utilizáveis por outros”. 

Embora a falta de médicos não se sinta como no resto do concelho de Ourém, a verdade é que há pessoas (à volta das 1600) que não têm médico de família. “Já temos alguma lista de espera, que não é da USF (Unidade de Saúde Familiar), mas são doentes”, clarifica e esclarece que, no Centro de Saúde de Fátima, há uma equipa de oito médicos, mas também um colega que vem pela Bata Branca e que faz o acompanhamento, em particular, a grupos de risco, grávidas, recém-nascidos e bebés”, o que, diz, “funciona muito bem”. Reconhece, porém, que há outros centros de saúde no concelho, como o da própria cidade de Ourém, que são “um caos”. Por isso, os médicos de Fátima dão uma ajuda disponibilizando alguns dias, ao fim-de-semana, para prestarem apoio a Ourém, em SAC, ou seja, em Serviço de Atendimento Complementar. Explica que, “vamos todos, os colegas de lá, que são pouquinhos e nós daqui. Aí é atendida qualquer pessoa da ULS com ou sem médico de família, que adoece ao fim de semana ou a quem tenha surgido algo mais urgente”.  

Entrevista completa no Notícias de Ourém de 22 de maio de 2026