Brás Luís De Abreu, Um ouriense Singular

Por Padre Jorge Guarda

Na passada semana, com o Dr. António Baptista e o Dr. Manuel Castelão, fui à Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. O objetivo era conhecer diretamente e compulsar as obras de Brás Luís de Abreu, autor erudito e singular figura ouriense. Tivemos em mãos e desfolhamos o seu “Portugal Médico” (de 1726), a vida de Santo António Português (de 1725) e, em espanhol, a “Aguillas hijas del Sol que buelam sobre la luna” (de 1717). Tem ainda outras obras guardadas em diferentes bibliotecas. Uma dessas é “O céu aberto no templo ou o templo aberto no céu” (de 1746). Pelas numerosas citações de autores antigos e de contemporâneos do autor e dos livros bíblicos, conclui-se que era uma pessoa muito erudita e de uma notável escrita. 

Brás Luís de Abreu, filho de Francisco Luís de Abreu e de Francisca Rodrigues de Oliveira, nasceu em Ourém, no ano de 1689. Estudou “artes e medicina” na Universidade de Coimbra e exerceu a profissão de médico, em Aveiro. Casou com Josefa Maria de Sá, em 1718, e teve 8 filhos. Em 1732, decidiram ambos consagrar-se à vida religiosa, levando consigo os filhos e as filhas: a mulher foi com as filhas para o Recolhimento de S. Bernardino das Terceiras de S. Francisco, em Aveiro, e ele para o Convento franciscano de Santo António de Aveiro, com os filhos. Faleceu em 1756. 

Diogo Barbosa Machado, um autor seu contemporâneo escreveu em 1741 que Brás Luís de Abreu exercitou a medicina “com fortuna e ciência”, foi para “o estado eclesiástico, onde se conserva com louvável procedimento”. E observa ainda que o notável médico ouriense “além de ser douto na sua Faculdade, é versado em todo o género de erudição, como também na poesia vulgar”. Inspirando-se na invulgar história deste médico e padre, com a fantasia que o caracteriza enquanto escritor, Camilo Castelo Branco criou o romance “O Olho de Vidro”, em 1866. 

Como facilmente se pode depreender, estamos diante de uma figura que merece ser descoberta e conhecida mais a fundo. Neste jornal, o Dr. António Rodrigues Baptista tem-no feito, apresentando o percurso de vida, algumas das suas obras mais importantes e os sonetos que compôs, nomeadamente os que fazem parte da sua obra maior, o “Portugal Médico”. O mesmo investigador está também a fazer algumas lições sobre o tema na Universidade Sénior de Ourém.  

Pelo que me parece, esta figura tem alguma coisa a dizer-nos do ponto de vista médico, espiritual e literário, que nos pode enriquecer. Curioso é também o seu percurso de vida, que o leva a passar de médico a religioso e padre, de casado e pai a pessoa consagrada a Deus, grandemente interessado em crescer na relação com ele e em transmitir a outros a paixão pela espiritualidade e a mística. 

A distância do tempo em que Brás Luís viveu e do estilo baroco em que escreveu não será certamente impedimento para que possamos conhecer e apreciar o legado que deixou e que honra as gentes ourienses. Haja iniciativa e apoios para fazer uma jornada de estudo ou até mesmo um congresso sobre este erudito ouriense do século XVIII. A sua memória enriquece e honra os ourienses.