Exposição “Há vida em Cuidados Paliativos” |A dádiva do Presente
O Auditório do edifício dos Paços do Concelho alberga, de 11 de abril a 29 de abril, a exposição fotográfica “Há vida em Cuidados Paliativos”, da fotógrafa Piedade Oliveira. Piedade retrata, em 31 imagens, que existe vida mesmo quando se está no final da mesma.
EVA GOMES
“Há vida em Cuidados Paliativos” foi um desafio proposto pela Unidade Local de Saúde Região de Leiria (ULS Leiria) a Piedade Oliveira, fotógrafa fatimense. Nas 31 imagens que compõem a exposição, são reveladas as vidas dos pacientes da unidade de Serviços Integrados de Cuidados Paliativos da ULS Região de Leiria.
Desafiada a desconstruir mitos e preconceitos, a fotógrafa acompanhou o dia –a dia numa unidade de cuidados paliativos, em Alcobaça. O que encontrou nos corredores desta ala hospitalar transformou a perceção de Piedade, que via os cuidados paliativos como um local “tenebroso”.
Dedica, acima de tudo, a sua admiração a todos os profissionais de saúde que trabalham nestes serviços pois, na visão da fotógrafa, “não prolongam a vida, mas dão sentido e dignidade à vida dos pacientes”.
Na inauguração da exposição estiveram presentes alguns elementos da equipa desta unidade de Cuidados Paliativos, como Sofia Pinheiro que descreve o trabalho de Piedade “como necessário e importante”.
“O sacrifício pessoal dos profissionais retratados tem de ser louvado, pois não se trata de dar colo ou ser humanista, mas trata-se também do saber técnico” para garantir a melhor qualidade de vida dos pacientes dos paliativos.
Sofia Pereira acrescenta que “as fotografias tentam transparecer o que nós profissionais vivemos todos os dias”. “Há vida para além dos cuidados paliativos, e a fotografia é a linguagem universal para o representar”, conclui a profissional de saúde.
A exposição fotográfica estará no Auditório do edifício dos Paços do Concelho até ao final do mês de abril, podendo ser visitada de terça a sexta-feira.
“Foi um processo de transformação”
Ainda estava exposta “O Novelo da Esperança”, uma exposição acerca de viver com cancro da mama, quando Piedade Oliveira recebeu o convite da ULS Região de Leiria. O primeiro impulso da fotógrafa foi recusar.
“Tinha esta perceção de que era um lugar tenebroso, associava a morte e até a algum sofrimento”, conta. “Não me sentia capaz” para fazer este trabalho fotográfico, pois Piedade considera-se muito emotiva.
Apesar da reticência, decidiu visitar a unidade em Alcobaça. O que viu naquela ala hospitalar mostrou-lhe que, afinal, existia tranquilidade. “Um ambiente muito calmo, não se vê profissionais a correr, dedicam o tempo que cada paciente precisa”, explica.
“É humanizar”, considera a fotógrafa. A exposição é, assim, o resultado do que viu e vivenciou nas suas várias visitas aos cuidados paliativos.
Recorda algumas das histórias que a mais marcaram, pelo estado de espírito dos pacientes. Uma das primeiras utentes que conheceu (e fotografou) dá cara à exposição.
“O ato banal de beber café, do saborear, ali é uma pequena dádiva”, refere Piedade. Conta que quando conheceu a utente esta estava tranquila, a saborear o café. “Se não fosse pela campânula no nariz e a botija de oxigênio, não se percebia que estava doente”, aponta. Passados uns dias, essa paciente viria a falecer da doença.
“Muitos dos que fotografei faleceram passado pouco tempo de eu lá estar”, ressalta Piedade Oliveira.
Outro exemplo, talvez dos que mais marcou a fotógrafa, é o de uma jovem que se encontrava na fase terminal de um tumor no pescoço. As suas fotografias, ao fundo do auditório, retratam a serenidade de alguém que aceitou o seu destino.
“Passado umas semanas vi o obituário e, a princípio, nem a reconheci. Acho que me marcou mais por ser tão jovem”, relata a fotógrafa.
Estas histórias pintam um retrato de uma realidade desconhecida, uma vivência em que “se vive vivendo cada dia”. “Esta exposição é um convite de olhar para os cuidados paliativos sem medo”, acrescenta Piedade.
A sensibilidade para retratar
Enquanto guiava os convidados pela exposição, Piedade Oliveira explica o que cada momento significou para si. Não é ao acaso que a primeira fotografia tirada, na primeira visita, e a última tirada, se encontram lado a lado.
“Representam o que vi: felicidade, serenidade e carinho”, sublinha.
A última fotografia tirada mostra um casamento, celebrado na ala de cuidados paliativos. O que mais marcou Piedade neste momento foi a filha do casal, que andava pelos corredores do hospital com um vestido de cerimónia, completamente contente.
A fotógrafa reconhece que é necessário um certo nível de sensibilidade para retratar estes momentos finais de uma vida. “Creio que foi por isso que me contrataram, porque tinha retratado a luta contra o cancro na “O Novelo da Esperança”, assume.
Para Piedade, o mais importante desta exposição, é o facto de que os profissionais de saúde “não acrescentarem dias à vida, mas acrescentam vida aos dias” dos pacientes que ali estão.
Na perspetiva da fotógrafa, o principal é reconhecer o trabalho nobre de todos os profissionais de saúde, especialmente nos cuidados paliativos. “Dão dignidade ao final de uma vida e precisam de saber lidar com emoções que nem eu própria sei como lidei”, expressa.

