A experiência de ser povo de Deus peregrino
Por Padre Jorge Guarda
No passado dia 21, milhares de pessoas de múltiplas comunidades da Diocese de Leiria-Fátima deslocaram-se por vários meios para a Fátima para fazerem a peregrinação ao santuário da sua Padroeira, sob o lema “Com Maria, testemunhas da Esperança”. Ali se congregaram com os sacerdotes e religiosos, sob a presidência do bispo D. José Ornelas. O programa começou com a oração do Rosário, prosseguiu com a celebração da Eucaristia e concluiu-se com a oratória musical “Fátima, sinal de esperança para a humanidade”. Houve ainda momento para celebrar o jubileu de 25 anos de ordenação e vida episcopal do cardeal D. António Marto.
Uma parte dos fiéis, e eu próprio, fizemos a peregrinação a pé. Partindo de uma igreja e após um breve momento de oração, iniciámos a caminhada juntos. Peregrinar deste modo é fazer oração com os pés, ou melhor, com o corpo todo. Connosco levamos somente o essencial, move-nos a fé que arde no coração e nos impele em direção a um lugar sagrado, onde nos acolhe a Mãe do Céu, que nos encaminha para Deus. Não íamos sozinhos, mas em grupo como companheiros de caminhada. Estes foram dom, desafio e apoio ao longo do itinerário. Parámos algumas vezes, para reunir o grupo, acertar o passo, propor um símbolo para meditação e uma breve oração. Assim chegámos todos juntos e fizemos um almoço simples de confraternização. Depois, juntámo-nos à assembleia dos peregrinos, no coração do Santuário: a Capelinha das Aparições.
Podemos ir ao Santuário de Fátima por vários motivos e com diferentes pessoas. Neste caso, fomos como membros da Igreja diocesana, vivendo uma experiência de ser povo de Deus peregrino. A vivência da fé cristã requer esta pertença e a consciência de que fazemos parte de uma grande família espiritual. Efetivamente, a Igreja é uma grande comunidade na qual nascemos para a fé. É ela que nos alimenta e fortalece, na nossa própria comunidade. Nós precisamos dela e ela de nós. A relação é recíproca: recebemos e damos, somos acolhidos e partilhamos a vida e a missão comum. Sem ela a fé enfraquece, com ela torna-se mais viva. A experiência da peregrinação proporciona-nos esta comunhão eclesial e a identificação com a sua vida e missão. E isso transforma-nos e ajuda-nos.
Se a peregrinação nos proporciona a experiência do encontro e comunhão com Deus e com os outros, então regressamos a casa transformados. Habita-nos a satisfação, a alegria, uma renovada força espiritual e certamente propósitos que darão frutos na vida quotidiana. Não pode ser em vão que se fez este caminho e os encontros a que ele conduziu. Regressámos para viver melhor, com capacidade de ter outro olhar em direção àqueles com que vivemos e trabalhamos ou simplesmente encontramos nas ruas ou com quem nos cruzamos. Voltamos do lugar sagrado com um olhar iluminado, confiante e carregado de esperança. Não deixemos que esta se esvazie e se perca. Nisso precisamos de nos continuar a ajudar e fortalecer. Os encontros na vida, na família, no trabalho e nas comunidades cristãs ou humanas são ocasiões para esse apoio mútuo.
