Poemas lançados do espaço 

Trabalhos de casa interplanetários 

Por Ana Freire

Há dias a minha professora de Português do ensino secundário sonhou comigo. Não falo apenas da memória — falo mesmo de sonhos. Fiquei comovida. 

Passaram mais de trinta anos desde aquelas aulas: textos corrigidos com rigor, margens cheias de observações, exigências severas — e, suspeito agora, muita paciência. 

No sonho dela, eu estava no espaço. 

E de lá — de uma distância quase infinita — atirava poemas para ela, que os apanhava na Terra. 

Quando soube do sonho, fiquei contente — e um pouco apreensiva. Conhecendo a professora Fernanda, é perfeitamente possível que, mesmo vindos do espaço, os meus poemas não escapem a uma observação rigorosa. Imagino-a cá em baixo a fazer o que sempre fez: ler, avaliar e sublinhar cada vírgula mal colocada. 

Confesso que nunca gostei particularmente de poesia. Talvez por isso a vida me tenha levado para onde os versos raramente entram na equação. 

Mas afinal, por que razão sonhou a professora Fernanda que eu lhe atirava poemas? Será um castigo pedagógico tardio? Será que me esqueci de algum trabalho de casa e o entreguei agora, mais de trinta anos depois? 

Os alunos deixam marcas curiosas nos professores. Ficam nas memórias, nas frases repetidas — e, ao que parece, até nos sonhos interplanetários. 

E há professores que ficam connosco como uma espécie de bússola silenciosa — não os vemos, mas sabemos sempre onde estão. 

A professora Fernanda sempre foi exigente. Para ela, a língua portuguesa não é território para preguiça. 

Na adolescência, isso parece-nos uma severidade quase exagerada. Hoje percebo que era uma forma elegante de nos levar mais longe do que imaginávamos. 

Talvez por isso o sonho tenha sido assim: eu no espaço, a enviar poemas, como pequenas cápsulas de memória; ela na Terra, a recebê-los. 

Mas há uma pergunta que terei de lhe fazer: que nota deu aos meus poemas? 

Afinal, tive o cuidado de, longe desta nossa casa comum — a Terra — e daquela antiga sala de aula, fazer o trabalho de casa. 

Espero ter estado à altura da exigência — e ter conseguido uma boa nota. 

Outra dúvida persiste ainda, e estou a arriscar imenso: que nota dará a este pequeno texto? 

Para a minha professora Fernanda: 

Será este um dos poemas que mandei? 

Aqui no espaço, onde não há campainhas 

nem cadernos pautados ou quadriculados, 

faço devagar o meu trabalho de casa — 

poesia nunca foi do meu agrado. 

Imagino-a em silêncio, de lápis na mão: 

corta, risca e sublinha, 

Será que tenho boa nota? 

Se a rima se perder na rota 

e o julgamento não me sorrir, 

volto, tranquila, à ciência 

onde, talvez, as estrelas tolerem estes versos.