Os serviços falharam, as contas não 

Editorial por Francisco Pereira

A tempestade Kristin e as intempéries que se lhe seguiram impactaram o nosso quotidiano. Durante dias, nalguns casos semanas, faltaram serviços essenciais como a eletricidade, a água ou as comunicações. Foi um cenário exigente, provocado por fatores que ninguém controla. Aceitar essa falha temporária é, por isso, um exercício de bom senso. Mais difícil de compreender é o que veio depois. 

Não dispomos de dados nem de conhecimentos que nos permitam avaliar se a reposição dos serviços poderia ter sido mais rápida. Admitimos que, em muitos casos, os danos nas infraestruturas tenham sido significativos e a resposta complexa. Ainda assim, para quem esteve, ou ainda está, privado de serviços básicos, a perceção de demora é real. Já as contas, essas não falharam. 

Da minha experiência pessoal, entre eletricidade, água e comunicações, nenhuma fatura refletiu o período de indisponibilidade, foi como se nada tivesse acontecido e o serviço tivesse sido prestado de forma contínua e sem interrupções. Perante as reclamações, respondem que o acerto virá na fatura seguinte. Esperemos que assim seja. 

Entretanto, as famílias, muitas delas já com orçamentos apertados, enfrentam prejuízos e despesas inesperadas, tudo isto agravado pela recente e acentuada subida dos preços dos combustíveis, aumento que deverá agora repercutir-se noutros bens, pressionando ainda mais o custo de vida. 

Num momento em que tanto se fala dos atrasos na chegada dos apoios públicos ao terreno, seria desejável que não se agravasse a situação com cobranças de valores indevidos. Espera-se, por isso, não só o integral restabelecimento dos serviços essenciais, mas também a justiça de não pagar por aquilo que não foi prestado. Porque, se há falhas que compreendemos, há outras que não podemos aceitar.