Mais Feira de São Bartolomeu e menos Feira das Panelas
Caxarias
A Feira de São Bartolomeu, popularmente conhecida por Feira das Panelas, teve lugar no passado fim de semana, 30 e 31 de agosto, em Caxarias. Mas, na verdade, de panelas já tem pouco. Longe vai o tempo em que muitos artesãos, oleiros e cesteiros, ali expunham e vendiam o produto do seu trabalho. Hoje, são apenas dois oleiros vindos da freguesia da Bajouca, em Leiria, e um cesteiro do Olival
AURÉLIA MADEIRA
Atualmente, a Feira das Panelas, em Caxarias, é mais uma feira de venda genérica de produtos, como qualquer feira ou mercado alargado. Contudo, ainda encontramos pequenas bancas onde a população mais rural vai vender os produtos excedentes da sua produção, como a fruta da época, ou confecionados para a ocasião, como as tradicionais fogaças. A fazer prevalecer o nome popular que foi dado a este certame e que, na verdade, é a Feira de São Bartolomeu, apenas estiveram presentes dois oleiros e um cesteiro.
“Ainda há raízes que vão aguentar isso mais uns anos”
Manuel Ferreira é oleiro e veio da Bajouca, no concelho de Leiria, porque em Ourém parece já não haver quem desenvolva a profissão.
Ao Notícias de Ourém, conta que começou a trabalhar o barro porque esse era o trabalho da família. “A partir dos oito anos já se começa a ter noção, força para trabalhar, para moldar. Foi quando eu comecei e vou fazer 60 anos nisto. Principalmente as tampas, que é a primeira coisa que se faz, é uma tampa para uma púcara”.
Contudo, reconhece ser um trabalho muito incerto. “Isto não é como um emprego”, afirma, “um dia vende-se, outro não se vende”. E porque nem todas as peças se vendem bem, é preciso que as que se vendem compensem as que não têm tanta saída. Mas o oleiro não trabalha apenas para vender em feiras. Também tem clientes com lojas, a nível nacional.
Face às diferentes peças que apresenta, diz que “neste ramo temos que ir adaptando conforme as encomendas dos clientes. Fazemos muitas peças por medida”, afirma, e considera que essa é a “vantagem do trabalho manual, temos a possibilidade de fazer aquilo que o cliente mais quer”.
Perguntámos a Manuel Ferreira se tem filhos e se eles pensam seguir a profissão. A resposta é dúbia: “Atualmente não”, mas “aprenderam a moldar” e “quando têm possibilidade, ao fim de semana, de fazer uma demonstração que eu não possa fazer, eles pegam na roda e vão fazê-la, numa escola ou em qualquer outro evento”. Se vão ou não abraçar a profissão, o oleiro afirma que só “o tempo dirá”, até porque “foi o que me aconteceu a mim que larguei, andei na escola,
fui aprender outras coisas”. Só mais tarde, por volta dos 30 anos, começou a trabalhar “por conta própria”, na sua arte. Por isso, Manuel Ferreira não acredita que a extinção esteja para breve porque “ainda há raízes, penso que vão aguentar isto mais uns anos”.
Quanto ao barro para trabalhar, explica-nos que existem empresas “a tratar disso”, contrariamente ao que acontecia antes. “O barro tem que ser todo filtrado para tirar as impurezas e nós, atualmente, não temos pessoal que o faça”, pelo que “temos que comprar. Fica mais barato do que ter pessoal a preparar”.
Do seu trabalho, diz: “moldo, faço os pegamentos das peças, as colagens, a limpeza… deixo-as enxugar e depois vou à forma a cozer. Depois volto a fazer a vidragem e as pinturas. E volto outra vez a cozer o que for vidrado ou pintado”. Um cântaro dos antigos leva, por exemplo, uma hora a moldar e custa cerca de 15 euros, mas, afirma, “o problema é o gás e a luz que estão muito caros”.
(Artigo completo na edição de 05/09/2025)

