Denúncia Frente Animal | Cunicultora da Atouguia acusada de maus-tratos animais 

Coelhos golpeados contra o chão, coelhos vivos e mortos juntos em fossas de dejetos e mazelas notáveis nos animais, é o cenário denunciado pela Frente Animal, numa exploração de coelhos na Atouguia, Ourém. 

Eva Gomes

Num vídeo partilhado por fonte anónima com a Frente Animal, vê-se um trabalhador da cunicultora da Atouguia a agarrar em coelhos e a bater com eles contra o chão. O animal é atirado para uma arca frigorífica, onde se veem mais coelhos, alguns ainda vivos, no meio de outros mortos. 

Este vídeo terá sido gravado em agosto de 2026, pela fonte anónima, que fez chegar à organização não governamental (ONG). Foram ainda partilhadas imagens que mostram o local onde se encontram as gaiolas dos animais. 

Coelhos amontoados em gaiolas, alguns já mortos; animais com doenças aparentes, desde feridas abertas, crostas e lesões; e coelhos vivos caídos na fossa de dejetos, mostram a realidade desta exploração de coelhos. 

A Frente Animal afirma ter apresentado queixa à Guarda Nacional Republicana (GNR), a 23 de outubro, e à Direção-Geral da Alimentação e Veterinária (DGAV), de forma a serem verificados o estado de higiene das instalações e determinado que métodos de abate são usados na exploração. 

O Notícias de Ourém contactou a GNR para perceber se já foram feitas diligências. “A denúncia chegou às autoridades e encontra-se em investigação”, afirmou o coronel Hélder Nobre, responsável pelo gabinete de Relações Públicas do comando de Tomar. 

O presidente da junta de freguesia de Atouguia, Luís Manuel Gameiro de Oliveira, quando questionado sobre a situação, confessou ter sido apanhado de surpresa, sem “nunca ter suspeitado de que eram essas as condições”. Até à data da transmissão de uma reportagem, pela SIC Notícias, “a junta nunca recebeu qualquer informação sobre a exploração de coelhos”. 

Em comunicado partilhado com os meios de comunicação social, a Frente Animal denuncia ainda maus-tratos animais e faltas de condição de dignidade animal e de higiene em explorações de aves, na Zêzerovo, em Ferreira do Zêzere, e numa unidade da Ovolíquido, em Leiria. 

Maus-tratos e más condições 

Após receber a denúncia, o Notícias de Ourém procurou analisar as imagens e documentos partilhados pela Frente Animal. O cenário partilhado pela ONG contém imagens perturbadoras, de cadáveres em estado de decomposição junto de animais vivos, corpos de coelhos nas fossas de dejetos (que aparentam não ser regularmente limpas), e animais que parecem estar doentes. 

As gaiolas, visivelmente pequenas e a abarrotar de coelhos, colocam em causa a saúde e bem-estar dos animais. O espaço onde se encontram também não aparenta reunir condições mínima, sendo que as imagens mostram um local fechado, sem luz natural, com um sistema de ventilação que sugere já ser antigo. 

O médico veterinário consultado pela Frente Animal, Nuno Paixão, refere que os sinais de doença “justificam exame veterinário prioritário”, reforçando não ser possível determinar com rigor que mazela podem ter os coelhos. 

Diogo Trabulo, advogado, no seu parecer jurídico, aponta que existem “indícios suficientemente relevantes para questionar a conformidade” desta exploração, apelando por uma fiscalização urgente por parte da DGAV, ASAE e outras entidades competentes. 

A médica de Saúde Pública, Júlia Ferreira Rebelo, alerta que os cadáveres em decomposição “constituem focos ativos de risco sanitário, para quem ali trabalha e para quem vive perto”, tal como coloca em causa a cadeia alimentar, sendo que estes coelhos são vendidos para consumo. 

O Notícias de Ourém, com base nas informações dadas pela Frente Animal, conseguiu identificar o local onde se encontra esta exploração de coelhos, tal como quem são os proprietários da mesma. 

O Notícias de Ourém tentou contacto com os proprietários, mas até à data do fecho desta edição não obteve qualquer esclarecimento. 

Visitámos também o local onde está instalada a cunicultura, onde nos deparámos com um edifício antigo, sem janelas e sem qualquer pessoa no local. Quem passa por ali consegue sentir um cheiro nauseabundo, de fezes de animais.  

Não tendo conseguido contactar com os proprietários, não nos foi possível entrar nas instalações, e assim, confirmar em que estado se encontram. 

Um problema sistemático 

O Notícias de Ourém falou com Nuno Alvim, porta-voz da Frente Animal, sobre o caso da exploração de coelhos na Atouguia.  

O porta-voz da ONG denuncia um problema sistemático nas explorações pecuárias em Portugal. “Não quer dizer que as pessoas que lá trabalham sejam más pessoas, significa que existe um problema sistemático que permite que continuem a existir irregularidades nestas explorações”, sublinha. 

Nuno explica que a Frente Animal chegou a “dados da DGAV, de relatórios públicos, que revela uma amostra de 10% de todas as produções pecuárias do país que são auditadas”. Isto significa, de acordo com o entrevistado, que “existe um universo de 90% que nunca foi auditado”, e que, portanto, poderá estar a incumprir com as normas. 

“A DGAV, por motivos que diz ser falta de pessoal, apenas audita quando existe uma denúncia”, aponta Nuno. Na maioria das vezes, estas inspeções são agendadas junto dos proprietários, existindo assim uma possibilidade de deturpação de realidades. 

Nuno refere que existe ainda um “trabalho de consciencialização das populações”, em que deve de ser reforçada a “formação” dos profissionais da pecuária. 

Em 2020, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), concluiu que o bem-estar dos coelhos adultos é mais baixo em gaiolas convencionais do que nos outros sistemas avaliados. Mas estas diretivas nem sempre são cumpridas, como é o caso denunciado pela Frente Animal. 

O porta-voz da Frente Animal relembra que “o consumidor não tem a noção do que se passa nestas instalações de pecuária”, e que, portanto, é essencial que a população esteja cada vez mais consciente e que exija mais responsabilidade ética e ambiental a estes produtores.