Educação e Formação | Ourém dá impulso à futura Escola Profissional da Ilha do Fogo
A futura Escola de Hotelaria, Turismo e Acolhimento da Ilha do Fogo, em Cabo Verde, encontra-se em fase avançada de desenvolvimento, assente numa parceria entre o Município de São Filipe, o Município de Ourém e a INSIGNARE, entidade gestora da Escola Profissional de Ourém e da Escola de Hotelaria de Fátima.
CARLA PAIXÃO
O projeto, desenvolvido nas áreas da Educação e da Formação Profissional, pretende responder à carência de recursos humanos qualificados na Ilha do Fogo, sobretudo nos setores da hotelaria e do turismo, através da criação de uma oferta formativa certificada e alinhada com os modelos de ensino portugueses. Por outro lado, a iniciativa poderá também trazer benefícios ao concelho de Ourém, nomeadamente, ao nível da captação e mobilidade de profissionais para áreas onde existe escassez de mão de obra qualificada.
Para o presidente da Câmara Municipal de Ourém (CMO), Luís Miguel Albuquerque, trata-se de uma parceria com benefícios recíprocos para ambos os territórios. “Quando há um acordo, tem que ser sempre bom para as duas partes”, afirmou, sublinhando que o concelho tem vindo a partilhar conhecimento técnico com São Filipe, não apenas no âmbito da futura escola profissional, mas também noutras áreas de desenvolvimento municipal, dando o exemplo da construção do novo edifício dos Paços do Concelho, em que Ourém teve uma palavra a dizer.
No caso da nova escola profissional na Ilha do Fogo, o autarca destaca que a iniciativa permitirá reforçar a qualificação de recursos humanos através da criação de uma oferta formativa estruturada e certificada, especialmente nos setores da hotelaria e do turismo, contribuindo para responder às necessidades locais e dinamizar a economia de um território “onde ainda há muito por fazer.”
Em contrapartida, o autarca refere que esta cooperação representa também uma mais-valia para o concelho de Ourém, ao permitir estreitar relações com estudantes cabo-verdianos e contribuir para mitigar a escassez de mão de obra qualificada em áreas como a hotelaria e o turismo, setores com forte expressão na economia local. “Muitos desses alunos vão querer ficar no país, na região, depois de concluírem a sua formação”, acredita.
Segundo explicou, todos os anos há dezenas de jovens cabo-verdianos interessados em estudar no concelho, sendo os alunos previamente selecionados pelas escolas de Cabo Verde e posteriormente admitidos pela INSIGNARE. “Isso também é bom, porque permite-nos ter um maior número de alunos na Escola Profissional de Ourém e na Escola de Hotelaria de Fátima”, reconhece.
Segundo o diretor executivo da INSIGNARE, Pedro Major, este projeto nasce da histórica relação de cooperação entre São Filipe e Ourém, consolidada através do acordo de geminação celebrado em 1995, inicialmente centrado na mobilidade estudantil.
Entretanto, a ligação entre os dois territórios ganhou maior expressão. A INSIGNARE recebeu inicialmente dois alunos cabo-verdianos (em 1995), e em 2023, a Câmara Municipal de São Filipe retomou os contactos com Ourém e com a INSIGNARE, reativando formalmente aquela cooperação antiga. Numa primeira fase, o programa previa a integração de seis alunos cabo-verdianos na Escola Profissional de Ourém e de outros seis na Escola de Hotelaria de Fátima, a cada ano letivo, distribuídos pelos diferentes cursos. Contudo, o número acabou por aumentar.
“Neste momento temos 42 alunos de Cabo Verde a estudar nas nossas escolas profissionais [EPO e EHF], e tem sido um sucesso, porque são bons alunos que aqui estão a formar-se”, referiu Albuquerque.
Foi no seguimento desta parceria de mobilidade estudantil que o Município de Ourém e a INSIGNARE assumiram o compromisso de apoiar a implementação de uma escola profissional em São Filipe.
O edifício que irá acolher a futura escola já está identificado. Segundo Pedro Major, o espaço reúne diversas condições já instaladas, incluindo quartos, cozinhas e áreas de restauração, faltando agora realizar alguns melhoramentos e concluir a definição do projeto pedagógico.
“Neste momento, o projeto encontra-se na fase de estruturação pedagógica e organizativa, que inclui a definição da oferta formativa e do modelo de funcionamento da escola”, explicou o diretor executivo da INSIGNARE, sublinhando que a instituição estará diretamente envolvida em todo o processo de implementação.
Também Luís Miguel Albuquerque confirma que a prioridade passa agora pela componente pedagógica e administrativa. “As infraestruturas existem, o edifício já existe, agora falta implementar o projeto pedagógico”, afirmou, explicando que todo o processo será desenvolvido em articulação com a INSIGNARE e o Município de São Filipe.
De notar que o projeto conta com uma candidatura aprovada ao Instituto Camões, responsável por assegurar metade do financiamento da iniciativa. Os restantes montantes são suportados pela Câmara Municipal de Ourém, em 40%, e pela Câmara Municipal de São Filipe, em 10%. “Essa candidatura foi aprovada e está em desenvolvimento”, confirmou Pedro Major.
Visita institucional à Ilha do Fogo
Recentemente, uma comitiva de Ourém deslocou-se à Ilha do Fogo para acompanhar o desenvolvimento do projeto no terreno. A delegação integrou Luís Miguel Albuquerque, o vereador da Educação, o chefe da Divisão de Educação do município e representantes da INSIGNARE. Durante a visita, decorreram reuniões com escolas, agrupamentos e responsáveis educativos locais.
“Foi possível dar conta da nossa experiência e dos primeiros passos que devem seguir para a implementação dessa escola profissional”, referiu o presidente da Câmara de Ourém, considerando que a deslocação constituiu “uma viagem muito proveitosa”.
O objetivo primeiro e último desta parceria, reforça o diretor da INSIGNARE, passa por criar “uma escola profissional de referência” na Ilha do Fogo, capaz de formar mão de obra qualificada para Cabo Verde e também para Ourém. “Não é apenas um investimento financeiro. É um investimento em recursos humanos, em capacitação e em futuro”, afirmou.
Pedro Major destaca ainda o impacto humano e social da iniciativa, quer em Cabo Verde, quer em Portugal. Apesar de reconhecer algumas diferenças culturais, o responsável elogia a integração dos estudantes cabo-verdianos. “Revelam uma educação extraordinária, uma capacidade de adaptação muito grande e um comportamento exemplar. Estou convicto de que vão ser excelentes profissionais”, afirmou.

