Testemunho de jovem em peregrinação 

“Precisava de descobrir quem sou” 

Uma amizade que começa com as Jornadas Mundiais de Juventude e uma experiência de fé transformadora compõe a história de Seulbeen Kim, uma jovem sul-coreana à procura de sentido. 

Eva Gomes

Em 2024, Armando Neto e a sua família receberam, na sua casa, três jovens sul-coreanas, que vinham a Portugal para participar nas Jornadas Mundiais da Juventude. Na altura, Armando abriu as portas da sua casa, sem esperar que a sua família viesse a desenvolver uma ligação especial com uma das convidadas. 

Seulbeen Kim, na altura com 24 anos, veio às Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) por ser católica, na esperança de poder ver o Papa Francisco e conhecer outro país. 

“O meu pai perguntou-me se queria ir e eu aceitei, porque tinham me dito que podia conhecer pessoas de todo o mundo”, explica Seulbeen. 

É católica desde os seus 11 anos, por influência da sua mãe, que a levou a conhecer a Igreja. “Na altura, fui porque podia conhecer mais pessoas da minha idade e rezar. De dia para dia comecei a acreditar em Deus e agora acredito que Deus me tem ajudado”, afirma a jovem. 

Num país em que cerca de 10% da população é católica, apesar de ter a maior Igreja católica do mundo, Seulbeen sente-se mais conectada com a sua fé em Portugal.  

A sul-coreana conta que estar em casa da família Neto é para si como estar em casa dos avós. “Os meus avós já faleceram e sinto uma grande conexão com a Fátima e o Armando. É como se fossem meus avós”, refere. 

Depois da JMJ, Seulbin decidiu que tinha de voltar a Portugal para visitar esta família oureense. Mas sentia algum receio em voltar a encontrar-se com eles. “Durante os últimos anos fomos trocando alguns emails, mas não com muita frequência e tinha medo de que não me quisessem receber por isso, mas não, acolheram-me de braços abertos”, conta a jovem. 

“Foram os meus primeiros amigos estrangeiros”, relembra. “A Fátima deu-me um colar, que usei por dois anos, até se partir na Irlanda”, onde a jovem esteve a residir até ao início de 2026. “Estou muito agradecida por os ter conhecido, para mim Portugal são eles”, conclui. 

Após concluir o Caminho de Santiago, a jovem partilha as suas reflexões sobre a juventude na Coreia do Sul, a fé e o futuro. 

A pressão de ser Alguém 

Seulbeen tem 26 anos e no último ano tem viajado pela Europa. Esteve a viver cerca de um ano na Irlanda, seguindo-se uma estadia em Inglaterra, onde fez voluntariado.  

“Na Coreia do Sul existe uma grande pressão para seguir a vida de uma certa forma”, começa por explicar a jovem.  

Seulbeen conta que desde cedo se sentiu quase coagida a ter boas notas, entrar na universidade, trabalhar e constituir família. “Mas eu nem sabia realmente o que queria fazer da vida”, explica. 

Deixou o curso em Engenharia Química a meio, sendo que “talvez um dia até faça o mestrado na área”.  

“Quando entrei no curso, estava com a impressão de que ia adorar, porque no secundário gostava imenso de química, mas afinal era muito mais complicado do que estava à espera e percebi que não me revia, naquele momento, a fazer aquilo”, afirma a sul-coreana. 

“Na Coreia há esta cultura de competição, de que tens de ser sempre o melhor, e ao fim de tanto tempo a viver assim percebi que estava mais stressada do que devia, e que, na realidade, precisava de parar e pensar no que quero da minha vida”, aponta. 

A jovem refere a visita a Portugal em 2024 como um ponto de viragem. “Vi aqui um estilo de vida completamente diferente”, decidindo então vir para a Europa. 

Foi para a Irlanda, “sem saber falar inglês”, onde trabalhou num café. “Adorei viver na Irlanda, tudo é feito com mais calma”, declara. “Apesar de chover imenso, gostei muito de lá estar”, conclui. 

“Sinto-me bem neste ambiente, onde não há competição, é tudo muito calmo”, aponta a jovem sul-coreana. 

Após o término do seu visto de turista, seguiu para Inglaterra, onde passou uns meses a fazer voluntariado. “O meu plano agora é conseguir um emprego numa empresa coreana, a partir da Europa, em países como Hungria, Polónia e assim”, esclarece. 

Na busca por se conhecer, Seulbeen decide em Inglaterra que está na hora de embarcar numa grande aventura: o Caminho de Santiago. 

Até Santiago de Compostela 

A sentir-se perdida e sem saber o que fazer a seguir, Suelbeen decide, num impulso, fazer o Caminho de Santiago. “Sempre ouvi dizer que era uma experiência muito introspetiva”, justifica. 

Sem preparação nenhuma, ou “materiais apropriados como sapatos e assim”, a jovem lançou-se ao percurso de cerca de 800 quilómetros até Santiago de Compostela, com partida em Saint-Jean-Pied-de-Port, em França. 

“Tinha apenas sapatos normais, malas normais, e tive de mudar isso tudo quando comecei o caminho”, começa por contar. “Principalmente, porque a minha mochila começou a desfazer-se, então tive mesmo de arranjar novo equipamento”, complementa. 

No terceiro dia, os pés de Seulbeen começaram a dar sinais da falta de preparação para o percurso, tendo ficado com os pés cobertos de bolhas. “Foi doloroso”, comenta, entre risos.  

A sua “sorte ou resposta divina”, como classifica, foram duas senhoras que também estavam a fazer o caminho. “Uma senhora do Canadá e outra da Alemanha pararam para me ajudar, quando perceberam que os meus pés estavam magoados”, comenta. 

“Elas explicaram-me como furar com a agulha e desinfetar as feridas, para não ganhar infeção”, recorda a jovem. “O que me impressionou é que não me conheciam de lado nenhum, mas dedicaram o seu tempo para cuidar de mim”, reflete. 

Este sentimento de entreajuda foi o que mais marcou Seulbeen. Conta ainda outro episódio, em que um espanhol a ajudou, num dia de calor extremo. 

“Tinha parado num banco, para descansar. Do nada, aparece um senhor espanhol, a perguntar se estava tudo bem, ao que respondi que sim. Perguntou-me se gostava de churros, e recomendou-me um sítio que vendia”, conta a sul-coreana. 

Como estava cansada da jornada, o espanhol decidiu que lhe ia arranjar bastões de caminhada, tendo ido “pedir bastões extra a uma pousada da juventude que ali havia perto”. No fim, este benfeitor ainda lhe ofereceu churros. 

“Sinto que Deus me ajudou a conhecer estas pessoas, a estar no sítio certo, à hora certa”, medita Seulbeen. Acabada a jornada, em Santiago, conta ter chorado diante da Basílica e pensado que “Deus ajuda-me sempre”. 

Agora, recuperada da aventura, sente-se mais ligada à sua fé. “Esta jornada fez-me perceber que quero ser o tipo de pessoa que ajuda os outros, sem olhar para quem são ou de onde vêm”, dando o que pode, e sem esperar algo de retorno.