MADECA: Um olhar sobre a indústria da madeira
A indústria da madeira tenta recuperar, três meses após as várias tempestades que afetaram a Região Centro. O Notícias de Ourém falou com João Verdasca, dono da MADECA – Madeiras de Caxarias Lda., sobre as dificuldades e desafios do setor.
EVA GOMES
No coração de Caxarias, vê-se o edifício emblemático da MADECA – Madeiras de Caxarias, Lda. Desde 1952 que faz parte da paisagem urbana da vila ferroviária do concelho de Ourém.
João Verdasca aponta que o seu avô, o fundador da MADECA, terá decidido abrir ali a primeira serração pela proximidade à linha de comboio. “A madeira vinha pela via ferroviária, que passava mesmo aqui, colada à antiga serração”, conta.
Desde então, a MADECA expandiu e conta com duas fábricas, duas serrações e vários pontos estratégicos. De Caxarias para Salvaterra de Magos, este aumento “foi essencial para continuarmos no mercado”.
A empresa de paletes de madeira presenciou as várias crises do setor. Vivei ainda o boom industrial da década de 70, em que locais como Caxarias floresciam com o crescimento e abertura de novas indústrias.
Atualmente, a área de atividade da MADECA – Madeiras de Caxarias, Lda está focada na produção de paletes de madeira e na comercialização de substratos do pinho, que são exportados, maioritariamente, para a Holanda e “usados na produção de orquídeas”.
João Verdasca salienta que sem os proprietários florestais, nenhuma indústria da madeira consegue sobreviver. “As pessoas precisam de cuidar e rentabilizar os terrenos”, diz o empresário, aludindo à cadeia que alimenta toda a indústria.
Uma tempestade que veio atrapalhar
João Verdasca reconta os acontecimentos da madrugada de 28 de janeiro. “Nesta região, caíram cerca de 9 milhões de toneladas de matéria florestal”, afirma. Com o agravamento do tempo agreste, esta madeira tornou-se uma “bomba-relógio”.
“É muita matéria que caiu toda de uma só vez, é praticamente impossível limpar com rapidez, até porque ninguém estava à espera”, aponta o empresário. Usa a sua experiência pessoal como exemplo, pois como proprietário florestal vê dificuldade em conseguir limpar a quantidade elevada de madeira que caiu nos seus terrenos.
“Há outra agravante, as serrações e fábricas não estavam preparadas para receber tanta matéria-prima de uma só vez”, acrescenta. O empresário crê que existe madeira suficiente para alimentar as fábricas nos próximos anos, mas que não existe capacidade das empresas para dar escoamento a tanto material.
O mercado, de acordo com João Verdasca, não consegue dar resposta ao aumento repentino de matéria-prima. “Esta madeira tem de ser colocada em parques florestais e preservada, porque nós (fábricas) não temos como a comprar toda de uma vez”, sublinha.
O empresário ressalta que caso esta madeira não seja retirada atempadamente dos terrenos, “vamos ver crescer o que chamamos sucata florestal”. O mato, desgovernado, vai se revitalizar autonomamente, criando material florestal que não pode ser aproveitado para a produção de produtos e subprodutos da madeira.
“Algo que não prevíamos era o estado em que a madeira se encontra. Os troncos estão estalados por dentro e no meu ramo de atividade não é possível utilizar”, alerta João Verdasca. “Quando está queimada, ainda dá para aproveitar, mas estando estalada não há possibilidade de fazer corte para utilizar nas paletes”, conclui.
O empresário descreve que como as rajadas de vento batiam com muita velocidade, a as árvores partiram aleatoriamente, causando assim os danos no interior dos troncos.
“Para nós acaba por ser um prejuízo, porque comprámos muita madeira sem saber em que estado estava, e agora nem a podemos usar”, completa.
A escassez de produtores
João Verdasca explica que a Tempestade Kristin não é a única razão pela qual a indústria da madeira tem passado dificuldades. O empresário denúncia a falta de produção de pinho em Portugal.
“Deixou de se produzir pinho, até porque é mais fácil produzir eucalipto. Estamos numa zona que é ideal para a criação de pinheiros, mas como não traz um rendimento imediato (por demorar 20 a 30 anos a render), muitos dos proprietários florestais preferem plantar eucalipto”, afirma o empresário.
O dono da MADECA critica esta posição por parte dos proprietários florestais, até porque, como refere, “a plantação de eucalipto está proibida”. Mas isso parece não impedir que se continue a produzir eucalipto “em excesso”.
“Acabamos por ter de importar o pinho de outros países, sendo que podia ser produzido facilmente aqui”, acrescenta.
João Verdasca aponta que os incêndios, a falta de interesse na floresta e, agora, a tempestade, são os maiores motivadores para que a floresta seja abandonada. Com esse abandono, a escassez de matéria-prima “aumenta cada vez mais”.
“É muito provável que agora, ou sejam abandonados, ou acabem por serem plantados eucaliptos” nos terrenos afetados pelas intempéries. “É desmotivador para um proprietário, uso até o meu caso: de sete em sete anos os meus terrenos ardem, é muito difícil manter a floresta”, acrescenta.
João Verdasca acredita que deveria de “ser feito um inventário florestal, que já não é feito decentemente desde 2015”. Efetivamente, “as manchas florestais mudaram radicalmente nos últimos anos”.
“Muitas das serrações pequenas não conseguem estar a importar a madeira, seja de Espanha ou outro país, a longo prazo”, sublinha o dono da MADECA. O empresário vê como solução políticas de gestão florestal mais “apertadas”, para garantir a produção do pinheiro-bravo.


