Mário Catarino e Carlos Frias de Carvalho | Autores oureenses na Festa do Livro 

Um dos momentos altos da Festa do Livro de Ourém 2026, que iniciou na passada sexta-feira e se prolonga dia 10, foi o da apresentação de duas obras de autores oureenses. “Eurépica – Regresso da Viagem, Viagem de Regresso”, de Mário Catarino, é uma epopeia moderna que parte de Ourém e da emigração dos anos 60 para contar a História de Portugal e de parte da Europa, e “Açude”, um livro de contos de Carlos Frias de Carvalho. 

Nesta Festa, para além dos livros, não faltam as histórias contadas aos mais novos, a música e o teatro.

AURÉLIA MADEIRA

Habituados que estamos aos muitos livros de poesia já editados por Carlos Frias de Carvalho, surge, agora, o Açude, que constitui o primeiro volume de uma trilogia de pequenos, mas intensos, contos, que revisitam os territórios da sua infância, adolescência e juventude, passadas em Seiça – Ourém (assim mesmo, com hífen, como ele gosta de dizer). 

Na apresentação da obra e do autor, Carmen Zita Ferreira considerou estarmos “perante uma escrita profundamente evocativa, contagiada pela poesia”.  Diz a apresentadora que a prosa de Carlos Frias de Carvalho, que desde 1980 só publicava poesia, “renasce agora alada com asas de poesia e que evidencia também uma genuína sensibilidade pictórica já anteriormente assinalada por Urbano Tavares Rodrigues. 

“A poesia é o canto” do sofrimento 

“Aproximação que não surpreende”, afirma Carmen Zita, “vinda de um autor que é igualmente um dos mais conceituados galeristas de Lisboa. Açude é um livro composto com extrema delicadeza como se cada letra fosse uma flor, como se as flores fossem só feitas de fogais ou de pequenas asas prestes a partirem”.   

Após esta edição, mais dois desta trilogia estão quase prontos, afirma o autor, para quem “a poesia é o canto”, já que, como diz o povo, “quem canta, seu mal espanta”. É a escrita de “quem sofre, quem luta e que sente a vida como uma problemática complexa de sofrimento, angústia” e que, “naturalmente, tem tendência a cantar”. 

As primeiras publicações, ainda menino, no Notícias de Ourém 

Recorda que começou a escrever aos 12 anos e a publicar desde os 13, 14 anos, no Notícias de Ourém, quando “mandava para o jornal poemas com vários nomes”, para “entusiasmar a que venham outros também a escrever no jornal”. Com “20 e poucos anos”, publicou uma novela, o Comboio do Tempo em “homenagem ao meu pai e à minha terra que tem muitos ferroviários”.  

Já a prosa “foi sempre adiada”, afirma, reforçando a ideia de que “a poesia é o canto e quem tem sofrimento tem de cantar. O poeta é um cantor muito sofrido. O poeta não chora. Canta.  

E porque, embora em prosa, a essência do poeta se mantém neste pequeno livro de pequenos contos, não espanta que o primeiro desses contos seja dedicado à memória da sua filha falecida, “uma menina tão bela quanto dócil” que “partiste tão cedo, e de repente. Sem dizer adeus. Sem mais nada”.

O Chefe Borracha 

As suas histórias continuam, muitas vezes em torno de figuras da terra, ditas ou adivinhadas, que muitos ainda recordam, como é o caso do chefe Borracha, “um homem atarracado e destemido. Nada parecia amedrontá-lo ou vencê-lo, mesmo que as curvas da linha da vida lhe torcessem os dias, irremediavelmente”. Era ele que “comandava um pequeno grupo de homens que vigiava a linha do comboio entre Chão de Maças e Caxarias. «Um homem é de borracha!», repetia sempre diante de qualquer imprevisto ou dificuldade”. Até ao dia em que um vizinho, dando pela sua falta, o foi encontrar “inerte, tombado sobre a mesa quadrada de pinho”, porque, e assim termina o conto, “um homem é de borracha”, mas “um dia há-de partir”. 

Muitas outras personagens, mas também lugares, servem as memórias do autor, neste revisitar da juventude, sempre de forma concisa e essencial que assim pensa e faz um químico de formação. Mas fala também da sua ribeira, a de Seiça, e dos locais por onde passa e desagua, da estranha e única lampreia que a habita, mas também de correr contranatura já que “nasce aqui, bem perto”, recorda, “não se sabe exatamente de onde veio, mas nasce a poente e vai para nascente”. 

Poesia e imagem unidas à prosa 

Diz Carlos Frias de Carvalho que tem “44 livros para publicar”. Homem da “oposição”, sempre e seja a quem for, o autor reconhece que a sua escrita mudou há 25 anos, com a morte da filha, deixando o lado político, interventivo e social para se transformar numa “poesia intimista, de silêncio, de meditação, mais uma razão para ser poeta e não fazer prosa”. Contudo, acrescenta, “agora, com muitos remorsos, estou a reescrever e a apresentar a minha prosa”.  

Assumindo uma forte ligação da palavra à imagem (ou não fosse ele um galerista), Carlos Frias de Carvalho diz que a sua prosa “aparece neste momento com humanidade absoluta, com consciência da finitude”, trazendo “memórias da terra através das figuras que surgem no seu livro” e que “já pouca gente conhece”. Mas “são figuras que existiram, grande parte delas, que eu transformei em literatura, porque não se trata de um retrato absoluto, mas sim a partir de um retrato transformado em outro retrato em outra dinâmica.  As figuras que estão aqui existiram e foram outra escola de vida para mim. Tenho pena que quase todas tenham desaparecido”. 

Da pouca extensão dos textos, o seu autor conta que os levou ao editor para perceber se tinham qualidade e eram editáveis e que este se terá mostrado admirado, não apenas por perceber que eram “melhores do que esperava”, mas, sobretudo, questionando-o sobre a sua capacidade de escrever “um conto em meia página”. O autor explica-o facilmente: “sou químico de formação, procuro a essência, o cérebro”, exemplificando com as fórmulas químicas que “explicam tudo”. O químico estuda a natureza, a matéria, a estrutura, o cristal, a entropia, portanto, eu procuro o essencial. Os versos são curtos porque não têm palha e eu não tenho paciência para o romance”. Porque exigiria escrever muito mais, adjetivar, “eu tenho que dizer: a casa era amarela, estava na esquina, chovia, trovejava…”, e isso “não interessa para nada, o que interessa é o conteúdo essencial e é por isso que não tenho paciência para o romance, embora leia romance e goste imenso”. 

O Açude e Beatriz 

Por este pequeno livro passam muitos lugares e muitas figuras da terra, algumas perfeitamente identificadas, outras apenas caracterizadas de modo a permitir o seu reconhecimento. 

No último conto que dá nome ao livro, o Açude, é o próprio autor que faz como que um resumo do que escreveu. “Percorrer o lugar, cada sítio da infância ou juventude. Regressar à terra, à primeira experiência, à emoção inicial. Ao cheiro inconfundível de cada coisa, do chão e na época exata”. 

Conta-nos sobre aquela tarde de verão em que encontrou o Açude (de Seiça), procurando, ainda não sabia por quê ou por quem. Era por Beatriz, “como se fosse ela o próprio eco do mundo”. Mais à frente, ficamos a saber que “ali, davam as mãos e ficavam a tarde inteira, até anoitecer”. 

Depois, “ao olhar na direção da levada, vinham-lhe à memória os moinhas de água do Zé Moleiro. Outros moinhos faziam-se à porta de casa, quando a valeta escorria o suficiente para embalar aquelas rodas de beterraba, com canas abertas em forma de pá. Eram os moinhos de água mais belos! Ligeiros, gritavam com a força da água retida em represas de lama e fugiam por finos canais, embatendo nos côncavos dos colmos. Em Festa. 

Beatriz não tardava”.