Tradições de Páscoa | A arte do pysanka 

As tradições de Páscoa são distintas em redor do globo. Com a migração para outros territórios, é necessário manter uma pequena conexão com as raízes. É o caso de Anastasiia Liakh, uma jovem ucraniana que procura partilhar as tradições da sua terra mãe. 

EVA GOMES 

As ruas do país enchem-se, de norte a sul, de flores e fiéis a celebrar a Páscoa. Para além de uma celebração religiosa, é também uma tradição portuguesa, que junta gerações à mesa. As amêndoas, o folar e o cabrito, compõe uma mesa tradicional portuguesa. Na Ucrânia, não é muito diferente. 

Longe da terra natal, Anastasiia celebra a Páscoa de forma diferente. Algumas das tradições que costumava celebrar, hoje são readaptadas ao contexto em que se insere. 

Com auxílio da Albardeira – Associação Cultural, Anastasiia dinamizou uma oficina de pintura de ovos, os pysanka, uma técnica tradicional da época pascal da Ucrânia.  

Esta breve aula serviu como forma de dar a conhecer a cultura ucraniana e juntar a comunidade migrante, originária daquele país,que se encontra no concelho de Ourém e arredores. É quase “uma forma de celebrar a Páscoa como lá, com todos reunidos”, aponta a jovem. 

Mais voltada para crianças, esta oficina de pysanka incentivou pequenos e graúdos a arregaçar mangas e pintar ovos decorativos, expressando a sua criatividade. 

A técnica de pintar ovos 

Pysanka, numa tradução literal, é um ovo decorado com ilustrações e padrões coloridos, usados nas celebrações da Páscoa, na Ucrânia. Estes ovos coloridos são o centro das celebrações religiosas nesta época festiva. 

Começa-se por cozer o ovo, ou, como no caso demonstrado na oficina, fazer dois furos em cada extremidade do ovo e remover o que se encontra no seu interior. Depois de bem limpo, desenha-se o padrão que se pretende fazer, a lápis de carvão.  

O passo que se segue pode mudar consoante a vontade do artista, explica Anastasiia. De forma a preservar a cor, é colocada uma camada de cera de vela nos traços ou espaços desejados. Assim, quando o ovo for colocado na mistura de água e tinta de colorir, não se perde a cor anterior. 

Com um instrumento pequeno, onde se coloca a cera derretida, são feitos os traços que irão compor o padrão. “É preciso ter cuidado para não nos queimarmos”, alerta Anastasiia. 

Os padrões complexos nos pysanka tradicionais são conseguidos através de uma série de camadas de cera, intercaladas com um banho de cor, até obter o efeito desejado. No final, a cera é derretida sob a chama de uma vela. 

“Mas os mais pequenos podem usar canetas de tinta acrílica, que é mais simples para eles usarem”, aponta Anastasiia. Evitam-se manchas de tinta e dá maior liberdade criativa às crianças. 

“Na Ucrânia, acreditamos que ter estes ovos pintados protege a nossa casa dos espíritos maus”, afirma a jovem ucraniana. Esta tradição deriva da crença supersticiosa, da proteção do lar e da família. 

“É uma tradição muito antiga. Passou da minha avó, para a minha mãe e para mim”, aponta a jovem. “Aprendi a pintar os ovos com os meus pais, é muito simbólico”, sublinha. 

As brincadeiras da Páscoa 

Anastasiia reconta que o dia de Páscoa era um dia muito alegre. Os pysanka eram colocados num cesto, juntamente com outros alimentos, e levados até à igreja, onde seriam abençoados durante a missa. 

Após a missa, seguia-se um grande pequeno-almoço, onde eram comidos os ovos abençoados. “Tínhamos um jogo em que o primeiro que partisse o ovo perdia”, conta, entre risos, a jovem. 

“O meu irmão costumava fazer batota e eu perdia sempre por causa disso”, relembra. “É um pouco triste partir os ovos, nem sei bem porque o fazíamos”, diz Anastasiia. Hoje, os pysanka servem apenas para decoração. 

Durante a oficina de pintura de ovos, Anastasiia pode partilhar histórias com outros migrantes ucranianos que participavam nesta iniciativa. Contam, entre muitas gargalhadas, histórias de infância, como os jogos “um bocadinho violentos que fazíamos. 

“Havia um em que púnhamo-nos em fila e batíamos uns nos outros, à saída da missa”, relembram dois pais, que ali estavam a acompanhar (ou ser acompanhados) pelos filhos. 

Esta oficina permitiu que pudessem mostrar aos seus filhos, alguns já nascidos fora da Ucrânia, um pouco das tradições da sua juventude.  

“Cá ainda conseguimos celebrar de forma idêntica ao que se fazia na Ucrânia”, afirma um dos pais. “Vamos ainda à missa, onde se abençoa a comida do pequeno-almoço, como se fazia lá”, refere. 

 Todos apontam que Portugal é muito aberto a outras tradições, o que lhes permite continuar a celebrar as suas. “Também ajuda que Fátima tenha uma comunidade ucraniana já estabelecida, mas é sempre bom ver que somos bem recebidos”, expressa Anastasiia.