O MELHOR DA HUMANIDADE
Por Padre Jorge Guarda
As tempestades que assolaram o nosso país e o continuam ainda a fustigar trouxeram devastação, muitos prejuízos e desolação. Ao mesmo tempo, a catástrofe despertou uma onda gigante de solidariedade em inúmeras pessoas, que têm dado muito de si e bens para socorrer as vítimas. E, na primeira linha de auxílio, destaca-se o trabalho imenso e incansável de profissionais de múltiplas áreas e dos responsáveis autárquicos e do governo central.
Nesta tão grave adversidade, tem-se revelado o melhor da humanidade, que se pode definir em três palavras: compaixão, generosidade e trabalho. Mesmo abaladas pelas pesadas perdas, as pessoas não se deixam vencer pela tragédia e o sofrimento, mas fazem renascer dentro de si novas energias para enfrentar, suportar e superar a adversidade. Estão imbuídas de esperança e dão-se as mãos para reerguer o que caiu. Se, nas circunstâncias normais da vida, parece a muitos que se podem bastar a si mesmos, nesta grande aflição, percebemos que só nos salvamos, se dermos as mãos uns aos outros, se partilharmos e colaborarmos.
É quando partilhamos necessidades e dons que nos sentimos unidos uns aos outros e vivemos a fraternidade no amor. Com efeito, é na relação e entreajuda recíproca, seja com quem está próximo seja com quem está distante, que vivemos o melhor da nossa humanidade e avançamos num verdadeiro progresso humano, que não é só material, mas também espiritual e social. É isto estamos a ver e a viver atualmente. E deverá desenvolver-se para além da calamidade, na normalidade da vida. Se ficamos com a memória dos danos e cicatrizes da tempestade, deveremos também conservar o registo dos bons momentos que experimentámos na solidariedade vivida. E isso tornar-se inspirador para o futuro.
É verdade que há também queixas de roubos e a perceção de haver quem se aproveite indevidamente da solidariedade alheia, embora seja sempre difícil julgar, sem conhecer bem as pessoas e sem estar dentro das suas vestes. Não temos dúvidas, porém, de que não se pode aceitar de modo nenhum roubos e pilhagens de bens alheios, aproveitando-se da destruição e dos recursos para suprir necessidades. Daí os cuidados com a vigilância para evitar esse tipo de abusos e apanhar quem os comete para os levar à justiça.
Se nos dói tanta destruição e perdas, consola-nos a solidariedade concreta de muitos. Se nos custa a destruição das nossas casas e bens pelos quais nos cansámos a trabalhar durante anos e anos, anima-nos a proximidade e a mão amiga de quem vem ao nosso encontro. Jesus deixou-nos esta regra de ouro, que vale para este tempo difícil e para os tempos normais: “O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles” (Mt 7,12). Esta atitude é o que de melhor podemos ter como seres humanos para a vida em sociedade.
