Artistas emergentes | Rizoma e o desconforto de sentir
“Rizoma”, a primeira exposição a solo de Beatriz Carvalhinho, está patente na Galeria Albardeira, na sede da associação, até janeiro de 2027. O Notícias de Ourém conversou com a artista oureense que descodificou “a arte para além do cânone”.
Eva Gomes
A Galeria Albardeira, localizada na sede da Albardeira- Associação Cultural, é agora o albergue da exposição “Rizoma”, da jovem artista Beatriz Carvalhinho. Inaugurada no dia 25 de outubro, esta exposição é a primeira exposição a solo da oureense.
Dividida em duas salas, a exposição convida ao visitante a interagir com a arte, com peças em constante mudança. Beatriz Carvalhinho ocupa a galeria com esculturas de rede mosqueteira, cinza, telas em tinta acrílica, gravuras, e um índice interativo do seu estudo de arte.
A inauguração da exposição contou ainda com acompanhamento musical de Pedro Antunes, que apresentou o seu projeto musical “Asas de Borboleta”, um EP dedicado à condição médica que o artista sofre, Epidermólise Bolhosa, uma doença rara que afeta a pele.
Para Beatriz, “Rizoma” é o materializar do seu processo criativo. “Em constante mutação, sempre a evoluir e transformar-se”, é também uma reflexão da sua perceção da vida humana.
Sendo o existencialismo o centro da mostra, a artista explora ainda temas como a preocupação ambiental, luto e a angústia derivada de uma ansiedade sobre o futuro.
Beatriz Carvalhinho desafia os visitantes a regressar à cultura e ao desconfortável, “de entrarmos em comunidade e de partilharmos as nossas experiências, as nossas dores e conseguirmos desconstruir”.
Existencialismo e melancolia
Beatriz Carvalhinho, natural de Ourém, conta que cresceu no campo. Desde que se conhece como gente, cresceu junto da sua avó, rodeada pela floresta. É na natureza que procura uma resposta para as suas aflições e preocupações.
“Desde que nasci que desenho e que tenho contacto com a prática artística. O desenho foi algo que sempre fiz, desde brincadeiras, algo mais sério, sendo onde eu expresso e canalizo as minhas emoções e pensamentos”, começa por explicar a artista.
Beatriz considera ter herdado o contacto com o meio artístico, “porque tenho um avô falecido que também foi artista”. Ao crescer com essa referência e num espaço onde podia dar asas à sua imaginação, foi-lhe natural seguir um percurso nas artes.
No ensino superior, ingressou em Artes Plásticas, na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. “Foi nas Caldas onde me redescobri, foi o meu motor artístico. Senti-me a ir ao meu interior, e a tirar toda as camadas até encontrar aquilo que sou”, reflete.
A artista descreve-se como “extremamente emocional e empata”, qualidades que se refletem no seu trabalho. A melancolia é quase tátil nas peças que apresenta em “Rizoma”, por exemplo.
Rizoma- Caule e raiz
“O silêncio da contemplação de arte é desconfortável para muitas pessoas, e creio que é necessário sentirmos essa violência da arte, no silêncio de nós mesmos a observar uma coisa da qual não vimos antes, deixarmo-nos sentir o que aquela peça nos traz”, sublinha Beatriz.
Nesta via de pensamento surge assim as primeiras obras da artista. Como está exposto na Galeria Albardeira, Beatriz começa por esboçar os primeiros traços do que viria a ser a sua obra, “que nunca está terminada ou completa”.
Os desenhos que ocupam a parede do fundo da galeria, são o primeiro espaço para explorar o universo pessoal da jovem oureense. Os elementos são claros: árvores, ramos, natureza. Um regresso à infância, e uma declaração de “fascínio pela transformação e resiliência da flora e fauna”.
Segue-se o “Fascículo de Quíron”, que é o mote de toda a exposição. Neste “livro”, Beatriz foi colocando todos os seus pensamentos e emoções, transbordando a essência do seu processo criativo.

Tecido com pensamentos escritos, fotografias de quem já cá não está, a pele de uma cobra que encontrou na floresta perto da casa da sua avó, são o retrato da procura pelo conforto no desconforto.
“Muitas destas passagens refletem o meu processo de luto, pela minha avó que faleceu”, explica, apontando para a imagem de uma fogueira, a última queimada que a avó de Beatriz fez.
Uma das últimas páginas deste compêndio apresenta frases avulsas. “Foi o que escrevi no processo do luto, quando sentia que precisava de me expressar de alguma forma”. O tecido, alinhavado com linha preta, conta a história de um período de inspiração da artista oureense.
“Pilar e Cinzas II” e “Rizoma” são as obras que materializam a idealização de peças que Beatriz desenvolve. A primeira, criada ainda durante a licenciatura em Artes Plásticas, fala da insegurança ambiental.
“Depois dos incêndios de 2022 e 2024 que afetaram o concelho, fiquei sempre muito tocada pela destruição da natureza que aqui tivemos. Muitos dos meus trabalhos após esse período incluem carvão de árvores queimadas”, refere Beatriz.
“Em “Pilar e Cinza II” exploro a verticalidade e a mudança constante da natureza. Esta peça, simbólica da destruição e do luto pelo que deixou de existir, também tem uma dimensão de renovação e transformação”, sendo assim um reflexo da natureza e da observação da mesma.
“Rizoma” é a interpretação de uma raiz-caule exposta no solo. Feita de cinza, espuma expansiva e rede mosqueteira, e colocada em cima de terra, adapta-se ao espaço onde está exposta. É uma “representação do subconsciente”, segundo Beatriz. Esta peça, cada vez que for exposta, sê-lo-á de uma forma diferente, materializando a ideia de transformação constante que a artista procura passar.
“Acredito que todos nascemos artistas, mas depois é que escolhemos ser artistas”, comenta Beatriz. Uma das suas preocupações é a luta pela desconstrução do cânone da cultura portuguesa, querendo trazer a arte contemporânea a todas camadas sociais.
Esta preocupação deve-se ao seu tempo nas Caldas da Rainha, onde considera ter “desaprendido as noções que nos vão encaixando no ensino obrigatório”. A artista oureense explora, assim, os limites da estética, pondo em causa o que é belo e o que não é.
“Rizoma” encontra-se patente na Galeria Albardeira até janeiro de 2027, estando as portas abertas a 14 de novembro e 17 de janeiro. A visita à exposição pode ser feita ainda mediante marcação, através de geral@alabrdeira.org .

