Sinais de poluição reacendem alerta na Ribeira de Seiça 

A água turva e o cheiro mais intenso voltaram a levantar suspeitas de poluição na Ribeira de Seiça, em Ourém. O Município detetou vestígios de uma possível afluência indevida numa caixa de águas pluviais e vai prosseguir as inspeções para tentar localizar a origem. A Quercus alerta para um problema com histórico e para os riscos que estes episódios representam para a lampreia-do-Nabão, espécie classificada como criticamente em perigo.

Carla Paixão

Há seis anos, Anabela Henriques Pereira, engenheira biofísica, escrevia sobre a Ribeira de Seiça, em Ourém, a partir de uma imagem idílica. Ao fim da tarde, a luz dourada atravessava as árvores, a garça-cinzenta sobrevoava o leito e havia peixes e lampreias suficientes para alimentar aquele pequeno ritual da natureza. “Inspiro, volto para casa sabendo que tudo está bem”, escreveu então. 

Mas, naquele agosto de 2020, alguma coisa mudou. Os peixes que na véspera ainda sobreviviam apareceram mortos na ribeira. Lampreias e ruivacos estavam entre eles. A água tinha outro cheiro e, onde antes havia vida piscícola abundante, quase nada restava. A engenheira biofísica falou então de uma “fonte de poluição aguda” e deixou uma pergunta que continua atual: “E a Garça no seu voo de paz, onde está?” 

Seis anos depois, a Ribeira de Seiça volta a dar sinais que despertam preocupação. Nas últimas semanas, imagens e relatos publicados nas redes sociais voltaram a chamar a atenção para a alteração da cor da água e para um odor intenso e desagradável. A origem não está determinada, mas a Câmara Municipal de Ourém confirma que teve conhecimento da alteração da cor e do cheiro da água e que pediu a colaboração da Tejo Ambiente para perceber o que está a acontecer. 

Para Anabela Henriques Pereira, que desde 2020 tem vindo a alertar para o problema, estes episódios não podem ser vistos como acontecimentos isolados. “Desde então tenho vindo a alertar, nomeadamente a Câmara, e têm existido por diversas vezes poluições”, afirma ao “Notícias de Ourém”. Entre os sinais que diz ter observado estão manchas de óleo associadas à zona da Ponte do Regato. 

Segundo a engenheira biofísica, as intervenções realizadas no leito terão deixado a descoberto outros emissários pluviais. E, na sua leitura, alguns poderão estar ligados a ramais de esgotos, fazendo com que águas sem tratamento acabem por chegar diretamente à ribeira. “Não sabemos se vêm de fábricas, oficinas, prédios, casas!”, sublinha. 

Anabela Henriques Pereira chama ainda a atenção para aquilo que não é possível ver a olho nu, os sedimentos. “Não sabemos a composição dos componentes dos sedimentos enviados para a ribeira, o seu nível de toxicidade ou perigosidade”, alerta, acrescentando que também não são conhecidas “a quantidade e as características dos esgotos”. Parte desses materiais pode permanecer no leito e ser novamente mobilizada, dependendo da capacidade de diluição, sedimentação e das próprias características dos poluentes, alerta. 

A preocupação ganha outra dimensão por causa da lampreia-do-Nabão. A espécie, de distribuição muito restrita, passa grande parte do seu ciclo de vida na fase larvar, enterrada nos sedimentos. Para Anabela Henriques Pereira, isso torna particularmente importante perceber o que está a chegar à ribeira e o que fica depositado no seu leito. “É imperativo haver um levantamento da origem das emissões na drenagem pluvial e o encaminhamento destes para a rede de esgotos”, defende. 

O problema, acrescenta, ocorre precisamente numa zona onde a pressão humana é maior. Os focos que identifica situam-se no eixo da zona verde urbana de Ourém, ao longo do Parque Linear e na área prevista para o alargamento daquele espaço. “Não é numa zona rural onde ninguém passa e onde infelizmente não há rede de esgotos”, sublinha. Para a engenheira, trata-se de uma situação “extremamente impactante” pela falta de respeito pela ribeira e pelo ambiente.

Notícia completa no Notícias de Ourém de 18 de setembro de 2026