Nas margens do texto …  As histórias que nos matam de Maria Isaac

Crítica Literária por Agripina Carriço Vieira

Ao universo literário português têm chegado, nesta última década, novos e interessantes escritores, trazendo propostas desafiadoras e abordagens originais. Nomes como José Gardeazabal, Maria Francisca Gama, Carla Pais, Rui Couceiro, Susana Piedade, Sara Duarte Brandão, para citar apenas alguns exemplos, marcam o nosso panorama literário. A esta listagem, manifestamente incompleta, devemos acrescentar o nome de Maria Isaac que, depois do sucesso alcançado com a trilogia que inaugura a sua estreia literária intitulada Odisseia das pequenas coisas, composta pelos romances, Onde cantam os grilos (2017), O que dizer das flores (2021) e Quantos ventos na terra (2023), apresenta um novo romance, As histórias que nos matam (2025). Este é um livro que surpreende os seus leitores, desde logo por quebrar um claro efeito de continuum efabulativo criado quer pela localização das anteriores narrativas num mesmo espaço físico e social (um mundo rural do interior de Portugal), quer pela migração, de livro em livro, de um grande número de personagens, cujas histórias se vão completando ao longo das três narrativas. Este livro surpreende ainda pela opção por um registo discursivo, que assume agora uma dimensão marcadamente introspectiva, enunciado num tom confessional e intimista.  

Enquanto na Odisseia das pequenas coisas acompanhamos o dia-a-dia de indivíduos em comunidade, com o foco na importância das relações familiares e sociais na construção das identidades, em As histórias que nos matam temos um indivíduo, Miguel Godói, face às circunstâncias trágicas que ditam a sua existência, pondo-o face a si mesmo: às suas dores, às suas limitações, aos seus medos, às suas paixões, à sua doença. A primeira frase do livro, reveladora da mestria de escrita da autora, mergulha-nos, de imediato, num universo marcado pelo inesperado, pelo sofrimento e pela desilusão: «Miguel Godói temera uma vida curta, sem nunca pensar que o esperava uma morte longa» (p. 9). Nesta frase, de aparente simplicidade, inscrevem-se importantes chaves de leitura que remetem para dois tempos a que estão associadas percepções e emoções antagónicas. Ao receio que tinha de o tempo lhe faltar para materializar os seus grandes sonhos e projetos profissionais e pessoais e viver plena e intensamente as alegrias dos seus sucessos, contrapõe-se agora a angústia de ter diante de si um árduo e penoso caminho de agonia e sofrimento.  

É através desta belíssima frase que o leitor se embrenha numa narrativa que o leva em errância pelos labirintos da mente do protagonista, um homem que tudo tinha – sucesso, poder, reconhecimento, amor –, até ao fatídico dia em que um terrível acidente tudo lhe rouba. Deixando para trás a condição de «estrela criadora de uma notável produtora musical» (p. 29), dedica-se agora à actividade de tradutor, exercida na solidão do seu apartamento, porque mais consentânea com as «condições da vida de um homem acidental» (p. 30), a braços com sofrimento físico a que se somam crises de epilepsia acompanhadas de ausências de consciência, cada vez mais longas e frequentes A leitura desvenda-nos a viagem aos abismos da mente nos quais Miguel Godói mergulha em busca de si, qual Orfeu em busca de Eurídice. A fuga desse inferno toma forma aquando do encontro de Godói com um livro, As mil e uma noites, que recebe das mãos de uma alfarrabista da Feira da Ladra. Mais do que as histórias que aí são contadas, são as anotações manuscritas nas margens do texto que despertam primeiro a sua curiosidade, depois o apego àquele objecto, dele querendo tudo saber: quem o lera e anotara? Qual a intencionalidade dessas notas? Como tinha o livro chegado à banca da alfarrabista? Se a música foi a forma de Orfeu lutar contra o reino das sombras guardado por Hades, a palavra – a lida nos livros que lhe vão chegando e a escrita num diário em que fixa o tempo presente – é para Miguel Godói a bússola orientadora na busca do conhecimento de si pelos meandros da memória.  

Com As histórias que nos matam, Maria Isaac oferece-nos uma ficção que nos questiona e interpela, por aí encontrarmos reflexos, mesmo se por vezes invertidos, da história de cada um de nós e, com o protagonista, reconhecer «que, saudáveis e enfermos, somos todos pessoas a viver as suas escolhas, condicionadas às circunstâncias» (p. 113).