Migrantes são gente como nós
Por Padre Jorge Guarda
Neste mês de agosto e ao longo de todo o ano, encontramos com frequência portugueses emigrantes em muitos países espalhados pelo mundo que vêm visitar a terra de onde partiram. Foram para o estrangeiro, mas gostam de voltar e ser recebidos e reconhecidos como dos nossos. Por outro lado, quase todos os dias, nas nossas cidades, vilas e aldeias, cruzamo-nos com imigrantes, gente que deixou os seus países e vieram para o nosso em busca de melhores condições de vida. A nossa longa história de emigração deveria ter-nos preparado para sabermos receber tanto os nossos como os que se lançaram na aventura da emigração no sentido inverso.
Na passada semana, vivemos em Portugal uma semana dedicada às migrações, sob o tema “Da fragilidade à esperança”. Com ela visou-se sensibilizar a população para a problemática da mobilidade humana e para a exigência do acolhimento a quem deixa o seu país para viver e trabalhar noutro. Além da oração, da reflexão e da recolha de ofertas para o apoio pastoral da Igreja a este tipo de pessoas, houve também a peregrinação ao Santuário de Fátima, nos dias 12 e 13 de agosto.
Por feliz coincidência, a Palavra de Deus do passado domingo pareceu escolhida de propósito para esta finalidade. Na verdade, ouvimos o profeta Isaías a dizer que, com o seu coração universal, Deus acolhe no seu povo os estrangeiros que desejam aproximar-se d’Ele, rezar e prestar-Lhe culto em Jerusalém, pois, diz Deus, “a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos”. Na mesma linha de acolhimento, apesar da resistência inicial, Jesus escuta uma mulher cananeia, elogia a sua “grande fé” e cura-lhe a filha do mal que a dominava. Por seu lado, S. Paulo, na carta aos romanos, fala do acolhimento de judeus e gentios na Igreja.
Crendo e obedecendo à Palavra de Deus, a Igreja é chamada a acolher gente de todos os povos. Por isso mesmo, se diz que é católica. O Santuário de Fátima é, efetivamente, lugar de acolhimento e “casa de oração para todos os povos”. Assim, os fiéis católicos, se não quiserem trair a sua fé, não podem ser xenófobos e rejeitar o fenómeno das migrações. Não podem ser daqueles que cedem a preconceitos e veem com maus olhos os migrantes. Pelo contrário, acolhem quem vem, aproveitam oportunidades para se encontrarem com eles, conhecerem os seus valores e partilharem os próprios. Aos emigrantes portugueses, por ouro lado, quando veem fazem-lhes sentir que são dos nossos, estão em sua casa e no meio do seu povo. Emigrantes e imigrantes trazem riqueza para nós, não apenas material, mas também de sensibilidade e cultura.
O necessário bom acolhimento a uns e a outros requer também, por parte deles, que saibam apresentar-se com humildade, sabendo valorizar o que cá encontram, sem a presunção de que seja melhor o que têm por lá ou a sua cultura ou religião.
O acolhimento aos imigrantes não pode ignorar a necessidade de regras para que haja as devidas condições para os integrar na nossa sociedade. É certo que os devemos respeitar e valorizar, mas também exigir que façam o devido esforço para nos respeitar, conhecer e adaptar-se a nós, incluindo na aprendizagem da língua. Como dizia o profeta Isaías, na citação acima referida, para serem devidamente recebidos e integrados, os estrangeiros têm de fazer a própria parte para comungar dos valores e obedecer às normas de convivência do povo que os acolhe. Há, portanto, obrigações mútuas.

