O Silêncio de Fátima
Por Padre Jorge Guarda
Na recente peregrinação de 12 e 13 de maio, em Fátima, como me acontece com frequência, impressionou-me especialmente a procissão em silêncio, no final da celebração do dia 12, à noite. Uma multidão imensa envolvida num manto de silêncio com coração e olhar fixos na branca imagem iluminada, muitos conservando nas mãos os restos das suas velas acesas, o que dava ainda mais beleza, emoção e expressividade a estes três elementos: a escuridão da noite, a luz das velas e da iluminação da imagem e o silêncio que, como um manto, a todos se estendia e envolvia, dando o calor da ternura e proteção maternas.
Enquanto descia do altar na procissão dos concelebrantes com a Imagem mariana no seu regresso à Capelinha, ia observando os rostos compenetrados e alguns emocionados e com os olhos a lacrimejar dirigidos para a Virgem Maria. Havia também os que tinham nas mãos fotografias de familiares e os telemóveis. Quantas amarguradas preces residiam nos corações e esperavam ser olhadas e atendidas pela Mãe do Céu! Ela era o foco da atenção e da sintonia de todos.
Este não é um silêncio de tristeza, dor ou vazio por alguma pesada perda. Cala-se para se olhar, confiar e esperar. Afinam-se os ouvidos para escutar as mensagens que são segredadas ao coração. É neste que se colhem e acolhem as confidencialidades da Mãe do Céu para as inquietações, súplicas e buscas que levaram inúmeros fiéis ao Santuário de Fátima. Maria, a Mãe de Jesus, aquela que se manifestou a três crianças e encheu os seus corações da luz divina, da paz e da alegria, conforta agora os corações dos seus devotos, enchendo-os de confiança e esperança, com que voltam para as suas casas após a peregrinação.
Faz bem este silêncio. Como a chuva benfazeja desce à terra e a fecunda, assim este silêncio permite que a bênção do Céu desça aos corações curando e fazendo germinar paz, conforto, esperança e encorajamento. Sem palavras, somente com o olhar e o coração, os devotos confiam-se à Mãe do Céu na atitude que esta antiga oração mariana exprime: “À vossa proteção nos acolhemos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita!”
E assim, neste silêncio, depois do mar de luz da procissão de velas, da escuta e meditação da Palavra de Deus e das preces por todo o mundo e, em particular, pelos mais necessitados da ajuda do Céu, termina para a multidão a noite de oração.
Precisamos destes momentos de silêncio que inspira e cura, em grandes ou pequenas assembleias. E também na família ou quando estamos sós. Neles se curam feridas e se libertam energias, inspirações e graças essenciais para viver com confiança, esperança e espírito de fraternidade na vida de todos os dias.

