Almoço em Tomar | Academia do Bacalhau do Ribatejo
Bacalhau, fados e posse do novo presidente, marcaram o último encontro da Academia do Bacalhau, do Ribatejo.
AURÉLIA MADEIRA
Decorreu, no passado sábado, em Tomar, um almoço da Academia do Bacalhau do Ribatejo, onde, para além dos vários pratos de bacalhau, houve fados, rifas e leilão de uma pintura, oferecida por um artista plástico de Riachos, José Coelho. Foi ainda empossado o novo presidente da Academia, sediada em Torres Novas, Nuno Cabeleira. Para além dos ribatejanos, o convívio contou ainda com a presença de uma representação da Academia do Bacalhau canadense e outra francesa, sendo que, esta última, visitou o Convento de Cristo e o centro histórico de Tomar, ainda antes do almoço. A tarde ficou marcada pela visita ao museu dos fósforos e à olaria, ambos no convento de São Francisco.
Mas o que é a Academia do Bacalhau?
A primeira Academia do Bacalhau nasceu em 1968, em Joanesburgo, África do Sul, onde, na altura, viviam e trabalhavam cerca de um milhão de portugueses.
Atualmente existem 66 Academias do Bacalhau espalhadas pelo mundo, todas ostentando a mesma designação, os mesmos objetivos, a mesma base de encontro entre compadres, e funcionando em termos gerais de forma semelhante. No entanto, cada Academia é totalmente independente. Todos os anos é realizado um Congresso das Academias do Bacalhau, sempre num continente diferente, por rotatividade.
Contrariamente ao que se possa pensar, a Academia nada tem que ver com uma confraria gastronómica de bacalhau, nem nos seus objetivos, nem nos seus princípios norteadores.
A escolha do nome revela o traço de unidade comum que deve figurar na diáspora portuguesa e assentou em razões lógicas, afetivas e histórico-culturais, uma vez que para os portugueses o bacalhau foi, é e será simbolicamente conhecido como o “fiel amigo”, enquanto representação tradicional de alimento tanto na mesa do pobre como na do rico, sendo por todos apreciado no quotidiano e em ocasiões festivas.
A razão afetiva decorre do contexto de expatriação no qual se fundou a Academia do Bacalhau. Longe da pátria, o bacalhau saboreado em convívios e tertúlias entre portugueses atenua a distância de todos aqueles que estão longe do país.
A razão histórico-cultural, por seu lado, remete para a importância alimentícia deste peixe assim conservado. O elevado nível proteico do bacalhau, associado à capacidade de ser conservado durante muito tempo, foi um fator determinante de vantagem na corrida ao desenvolvimento das civilizações ao longo dos séculos. Já na Idade Média, o bacalhau ganhou fama de alimento durável e de sabor mais agradável do que outros peixes salgados, tornando-se o recurso alimentar das gentes pobres até à Segunda Guerra Mundial.
A relação íntima que os portugueses estabeleceram com este alimento remonta ao século XII, mas foi na época dos Descobrimentos, em particular no século XVI, que o bacalhau foi crismado de “fiel amigo”.
Também a Igreja Católica impulsionou a popularização do bacalhau, instituindo dias de jejum e proibindo a ingestão de comidas “quentes”, como as carnes, sendo apenas autorizadas as “frias”, como os peixes. Sendo a carne interdita em quase metade do ano, os dias de jejum passaram a ser os dias do bacalhau salgado e seco.
E assim foi, também graças ao bacalhau e à sua descoberta nos mares do Norte em 1497, que se tornaram fisicamente possíveis as prolongadas viagens dos Descobrimentos Portugueses dos séculos XV e XVI.
Por estas múltiplas razões, as tertúlias organizadas mensalmente, por todas as Academias do Bacalhau do mundo, frequentemente incluem no seu cardápio o bacalhau regado com azeite e acompanhado de um bom vinho tinto português, que, por seu lado, é condição essencial para o brinde académico, o Gavião de Penacho, entusiasticamente entoado por todos os compadres como forma de iniciar e encerrar as reuniões, assim como de homenagear convidados e entidades oficiais.


