Dia Internacional do Contador de Histórias (20 de março) | Rodolfo Castro, o “pior contador de histórias do mundo”  

Argentino de origem, professor por vocação e contador de histórias por desígnio do acaso, Rodolfo Castro, o “pior contador de histórias do mundo”, construiu um percurso onde a palavra se afirma como instrumento de liberdade e confronto. Recusa narrativas fáceis e convoca crianças, jovens e adultos a escutar e questionar. Porque, “duvidar é a essência de ser livre”.  

CARLA PAIXÃO 

Há histórias que parecem escritas antes de acontecerem. E que têm mesmo de ser contadas. A de Rodolfo Castro, “o pior contador de histórias do mundo”, começa num tempo de silêncio e opressão, e atravessa continentes, até encontrar, em Portugal, um território de liberdade e expressão. Pelo caminho, há um país em ditadura, livros proibidos, viagens errantes e salas cheias de gente inquieta. E, a todo o tempo, há uma ideia que lhe alimenta a alma: contar histórias não é só entreter. É provocar pensamento. 

“Cheguei a Portugal há 16 anos, embora tenha saído da Argentina há cerca de 30”, recorda Rodolfo Castro. A memória leva-o à adolescência, vivida sob uma ditadura que lhe moldava os comportamentos e lhe restringia as liberdades. Foi então que um livro proibido lhe caiu nas mãos, uma obra sobre a Revolução dos Cravos em Portugal: “Lembro-me de pensar que queria viver num país onde pudesse ir para a rua sem levar pancada.” Uma ideia que ficou suspensa no tempo, quase esquecida. Até que, décadas mais tarde, já contador de histórias profissional, a viver no México, Rodolfo Castro recebe um convite para participar no festival “Palavras Andarilhas” em Beja. “Quando me disseram que era em Portugal, lembrei-me logo daquele livro”, conta.  

Esse reencontro inesperado com a memória de um livro que outrora lhe havia passado pelas mãos trouxe consigo um ensinamento para a vida e que faz questão de vincar e propagar: “Quando lês um livro, nunca sabes quando ele vai fazer sentido na tua vida.”  

Portugal, nesse tempo (meados de 2010), era ainda um terreno por explorar na narração oral. Portanto, “fértil”. “O movimento de contadores de histórias era muito incipiente, muito verde”, percebeu logo. Depois de contar as suas histórias no Festival, Rodolfo foi convidado a ficar e a contribuir para a formação de novos narradores. Aceitou o desafio. Fixou-se com a família e, ao longo de vários anos, percorreu o país de lés a lés, para semear aquilo que viria a tornar-se uma “comunidade viva”.  

“Muitos dos contadores de histórias que hoje estão no ativo, em algum momento, passaram por formações comigo”, nota com orgulho. O que se construiu foi mais do que um percurso individual, refere Rodolfo Castro, anunciando “uma rede, uma base, um movimento mais estruturado. Um processo muito bonito de construção coletiva”. 

Entrevista completa no Notícias de Ourém de 27 de março de 2026