“Ary, o Passarinho da Liberdade” sobrevoa as escolas de Ourém e Fátima
Em abril, quando Portugal revisita a história da Revolução dos Cravos, há uma palavra que persiste: “Liberdade”. Ecoa nas ruas, atravessa debates públicos e desperta consciências. É neste contexto que João Caldeira Heitor percorre as escolas de Ourém e Fátima, levando consigo o livro “Ary, o Passarinho da Liberdade”, numa iniciativa em que a literatura se afirma como ponto de partida para o diálogo com crianças e jovens, convidados a descobrir e a discutir o sentido dos conceitos de liberdade e responsabilidade.
CARLA PAIXÃO
A iniciativa arrancou na quarta-feira, 8 de abril, na Escola EB 2.3 IV Conde de Ourém, e prossegue a 14 de abril, na Escola Secundária de Ourém, terminando a 22 de abril, na Escola EB1 de Moita Redonda, em Fátima. Em cada sessão, a narrativa do livro entrelaça-se com o testemunho pessoal do autor e com uma reflexão sobre a “Liberdade” a par dos desafios da sociedade contemporânea.
A história de Ary, [nome escolhido pelo autor para homenagear Ary dos Santos], nasce de um momento de perda, mas também de descoberta. João Caldeira Heitor conta que tudo começou após a partida inesperada da mãe, Maria José Caldeira Heitor, professora do 1.º ciclo, que dedicou “toda a vida ao ensino em Ourém”, deixando um legado que viria a ganhar novo fôlego nas páginas de um livro começado pelas suas mãos e concluído pelo filho.
“Este livro nasceu num dos momentos mais difíceis da minha vida”, recorda João Caldeira Heitor: “Quando regressei ao apartamento da minha mãe, alguns anos após a sua partida, deparei-me com um caderno, entre tantos outros. Quase todo em branco. Mas, no final, havia uma história começada. Percebi que não podia deixar aquela narrativa por concluir. Era minha responsabilidade dar continuidade ao que ela tinha iniciado.”
Naquelas páginas, João Caldeira Heitor descobriu mais do que ideias soltas. Ali, estava rabiscada uma história sobre “Liberdade”. Um valor que a mãe lhe ensinara desde tenra idade a reconhecer como conquista fundamental.
O autor explica que a história do livro surgiu a partir de fragmentos que encontrou nas páginas deixadas pela mãe. “Falavam de um passarinho que vivia num grande plátano, numa quinta em Alcanena, a terra natal da minha mãe. Havia quatro capítulos, todos começados, mas nenhum estava acabado ou ligado entre si”. A partir dali, na reconstrução do texto, o autor deu especial atenção à sua essência social.
O passarinho Ary, explica João Caldeira Heitor, vivia atento a dois mundos distintos: o quotidiano das famílias dos trabalhadores da vila, operários humildes, e a vida abastada das famílias proprietárias das quintas circundantes. “Ary movia-se entre essas duas realidades com curiosidade e atenção, percebendo as pequenas diferenças, os gestos do dia a dia, as dificuldades de uns e as facilidades de outros”, descreve o autor, sublinhando as dicotomias sociais da época, que reporta aos anos 50/60.
Conta a história, que Ary não se limitava a observar. Preocupava-se com as famílias mais pobres e acompanhava a rotina dos seus dias. Um dia, a sua curiosidade levou-o a um voo mais longo, até ao bairro daquela vila operária, onde se deteve a observar as crianças a brincar, apercebendo-se também das dificuldades que enfrentavam as famílias mais pobres. “Ele volta para o ninho já de noite, onde os pais o esperavam. Avisaram-no, falaram-lhe sobre os perigos da vida, mas Ary julgava-se forte o suficiente para nada de mal lhe acontecer”, conta o autor.
Aventureiro por natureza, Ary acabaria por se ver em apuros. Toda aquela confiança é colocada à prova quando o passarinho cai numa armadilha e fica preso numa gaiola preparada pelo filho dos donos da quinta. E, apesar da empatia de todas as aves da herdade, ninguém consegue libertá-lo da sua “prisão”.
É então que a dona da herdade, a mãe da criança que o capturou, intervém. “Ela explicou ao filho a importância da liberdade”, conta João Caldeira Heitor. Compreendendo o valor daquele ensinamento, o menino abre a gaiola e liberta Ary. “A partir desse momento, ele passou a ouvir os conselhos dos pais e a transmitir a todos os animais da quinta que a liberdade é o bem mais precioso que temos e que não podemos abrir mão dela”, revela o autor.
A história de Ary, sustenta João Caldeira Heitor, é mais do que uma fábula sobre pássaros e quintas. Pretende ser, sobretudo, “uma narrativa sobre empatia, responsabilidade e respeito pelo outro”.
“A Liberdade não é um dado adquirido”
Para João Caldeira Heitor, falar sobre “Liberdade” nas escolas implica contextualizar o conceito e a sua relevância histórica. “Existem muitas liberdades, e hoje há quem pense que elas são um dado adquirido, mas não são”, alerta.
O autor reconhece que “as gerações que não viveram o 25 de Abril” e que “nunca ouviram os pais ou avós contar o quão difícil foi conquistar essas liberdades” podem não perceber plenamente a sua dimensão e importância. É precisamente por isso que considera essencial levar este tema às escolas, estimulando desde cedo a reflexão e a consciência crítica.
“Como falar de liberdade a meninos que acham que a têm nas mãos? Eles nunca se viram privados dela, é natural que não consigam dar-lhe o devido valor”, afirma João Caldeira Heitor, admitindo que “isso pode levar à banalização do conceito, confundindo direitos e deveres”: “Um dos deveres principais é respeitar a liberdade do outro. A minha liberdade não pode atropelar a do próximo, a minha liberdade acaba onde a tua começa. Temos de respeitar o espaço individual e também o coletivo.” E lembra: “A História mostra-nos que, em diversos momentos, as pessoas deixaram de poder dizer o que pensavam, deixaram de poder expressar-se, de circular livremente. Portanto, nada nos garante nada”.
“… está a ser muito maltratada”
O autor traça um paralelo com o mundo atual. “Hoje, com as redes sociais, as crianças têm acesso a telemóveis com inúmeras aplicações, centenas de canais de televisão, informação em tempo real. Há cinquenta anos, muitas pessoas dividiam uma sardinha por três. Hoje, vivemos num mundo globalizado, em que o “ter” se tornou mais importante do que o ser.” E, para João Caldeira Heitor, liberdade é mais do que “poder ter”.
“Liberdade é ser. É sermos responsáveis por nós próprios, pelos outros, pela terra onde vivemos, pelo concelho, pela região, pelo país.” E alerta que o consumismo e a dependência de objetos podem enfraquecer esta consciência. “As pessoas estão cada vez mais vinculadas ao ter. Temos de resgatar os laços de vizinhança e o conceito de comunidade. Para sermos livres em toda a sua dimensão, temos de se ser cidadãos comprometidos”.
João Caldeira Heitor, considera que aos dias que correm, “a liberdade está a ser muito maltratada”, incluindo na política. O autor alerta que, no Parlamento, apesar de haver partidos que são fundadores da Democracia em Portugal e que procuram defender os valores da liberdade, “há muitos políticos com pouca capacidade para proteger o que precisa efetivamente de ser defendido”, reiterando que “liberdade significa aceitar outras verdades, mas não a mentira”.
Aponta, por exemplo, para o crescimento de partidos de extrema-direita: “É assustador ver que são seguidos por muitos jovens, usando redes sociais com discursos contra imigrantes e o sistema, por exemplo. E muitas pessoas acabam por acreditar sem questionar.” João Heitor sublinha que a coerência política nem sempre se verifica: “Mesmo quando afirmam ter uma linha de orientação clara, quem lidera esses partidos raramente é consistente ou sério.”
João Heitor observa que a circulação de informação nas redes sociais agrava a situação: “Tudo o que chega é tomado como verdade absoluta. Poucas pessoas se dão ao trabalho de confirmar os factos. Isto é perigoso, porque a nossa liberdade depende também da nossa capacidade de discernir e de participar conscientemente na sociedade. E essa é uma mensagem que tento passar nas escolas aos alunos mais velhos”.
O autor de “Ary, o Passarinho da Liberdade” defende que a liberdade individual não se limita ao próprio espaço e que envolve responsabilidade social: “Acabamos por ser governados por pessoas inferiores a nós se não participarmos. Esse é o preço por não exercer a cidadania de forma ativa, seja na aldeia, na cidade ou na comunidade em que vivemos.” João Heitor compara essa interdependência com a vida de Ary, o passarinho da sua história: “Ele vive numa quinta, rodeado por outras realidades, mas continua inserido num meio. A nossa liberdade também é viver conscientemente no meio em que escolhemos estar.”
Neste âmbito, o autor aponta mais uma vez, para os desafios da sociedade contemporânea, em que a tecnologia cria bolhas individuais e isolamento social. “Somos cada vez mais dependentes de tecnologia, e isso limita a nossa liberdade. Quando nos falta a energia, internet ou comunicações, vemos o quão vulneráveis somos. Precisamos de reconstruir a sociedade, os laços entre as pessoas, e repensar como nos relacionamos uns com os outros”, reforça João Heitor.
“A minha mãe, ainda adolescente, distribuía jornais e panfletos contra o regime de Marcelo Caetano. Lutou pela liberdade. O meu pai e o meu avô também enfrentaram dificuldades e sacrifícios. Cresci a ouvir essas histórias e foi a partir delas que desenvolvi consciência política”, reflete.
Hoje, cabe-lhe a ele “cantar e contar a Liberdade”. Nas escolas, João Caldeira Heitor apresenta “Ary, o Passarinho da Liberdade” com uma mensagem clara: “Procuro mostrar a importância da liberdade, mas também de ouvir os mais velhos, refletir sobre os seus conselhos e agir sempre com responsabilidade. Deixo sempre a ideia de que é fundamental preservar a liberdade, porque, se a perdermos, pode ser tarde demais.”

