A Cultura importa 

Por Ana Carvalho 

Há reflexões que importa fazer num momento em que centenas equipamentos culturais, na zona centro, foram atingidos, entre outras, pela Tempestade Kristin. Alguns demorarão meses ou anos a reabrir na sua plenitude. 

Estes equipamentos, inspiração e palco de muitas manifestações artísticas, ao encerrarem as suas portas puseram em suspenso a fruição cultural que lhe estava associada, criando um vazio programático. Por outro lado, num primeiro momento, a necessidade de atender à urgência do território e da população em estado de calamidade, obrigou os municípios ao recentrar das prioridades relativas aos recursos técnicos e humanos disponíveis, promovendo um momento de contenção face à aflição e à dor. 

Num território que tão devastado foi, os poucos espaços culturais que se mantiveram abertos, ainda que sem atividades, constituíram-se como verdadeiras lufadas de ar fresco num quotidiano marcado pela falta de luz e de comunicações, pelo barulho de geradores e pelo conhecimento atípico que todos adquirimos acerca dos mais variados materiais de construção. Procurou-se inspiração, bem-estar, contemplação, reflexão, mas também uma experiência de normalidade que rareou por esses dias. 

É impossível de medir o impacto social ou o real contributo da cultura e das artes para o desenvolvimento de uma comunidade, até porque há inúmeras condicionantes que influem na maior ou menor participação cultural, nomeadamente a latitude que habitamos, a história que carregamos, as memórias que construímos, entre tantas outras. No entanto, há algo que não sendo matemático, é certo, a cultura e a arte são lugares de liberdade. Têm o poder de dar mundo, de proporcionar momentos únicos, seja de pensamento ou de contemplação, de transformar comunidades, de garantir cidadãos mais criativos, inovadores e tolerantes, sobretudo na presença de dinâmicas de educação e de produção, mais do que nas de simples fruição. 

Durante os anos da ditadura, a cultura foi escrutinada e, sobretudo, condicionada pelo regime. Revelava-se através de propaganda clandestina, nas entrelinhas dos livros, em tertúlias secretas. Hoje reconhecemo-la como direito fundamental consagrado na Constituição, garante de níveis de desenvolvimento civilizacional e, inclusivamente, assumimos a cultura como um investimento seguro. Ainda assim, reconhecemos a sua desvalorização nalguns meios e, na última década, assistimos a uma inversão dos valores garantidos há 50 anos. É célebre a frase de Sophia que alerta para o facto de que a cultura é cara, mas a incultura é mais cara ainda, mas sabemos que, infelizmente, se acrescentou à “incultura” uma dimensão de poder. 

Este texto não tem grandes pretensões, apenas serve o propósito de lançar pistas para a reflexão sobre a contemporaneidade do legado de Sophia que encontra eco num mundo com tendências distópicas. Num país e num mundo onde há famílias sem casa e doentes sem tratamento e sem hospital a questão da liberdade artística e intelectual pode parecer uma questão secundária (…) A Cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o Homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça