Rupnik: padre, artista e abusador sexual | Perpetuar a arte ou a memória de um abusador sexual

Sem ser novidade, a questão do painel que cobre a parede curva do fundo do presbitério da nova Basílica da Santíssima Trindade, de Fátima, volta a estar na ordem do dia. Deverá o Santuário de Fátima mantê-la, retirá-la ou cobri-la? 

Aurélia Madeira

Marko Ivan Rupnik, nascido em 1954, na Eslovénia, é um artista plástico, teólogo e antigo padre Jesuíta, amplamente conhecido pelos seus mosaicos monumentais presentes em importantes locais de culto católicos em todo o mundo. Nos últimos anos, tornou-se o centro de um dos maiores escândalos da Igreja Católica contemporânea devido a múltiplas e graves acusações de abusos sexuais, psicológicos e espirituais.  

Recentemente, uma entrevista dada por uma das suas vítimas, residente em Portugal, ao jornal O Expresso, provocou um regresso a este tema, no nosso país, e à questão sobre a manutenção do grande painel, deste autor, que cobre a parede curva do fundo do presbitério da Basílica, um mosaico com 10 metros de altura e 50 de largura, feito em terracota dourada e moldada manualmente. A simbologia. A cor do ouro simboliza a santidade e a fidelidade de Deus, tendo os três traços vermelhos a finalidade de realçar o dourado e favorecer a perceção do mistério e da santidade. O dinamismo e a tensão de luz e ouro nos sentidos horizontal e vertical pretendem convocar para a abertura à beleza, à comunhão e ao amor. O painel, sendo da autoria de Rupnik, foi executado por um grupo de artistas especializados, provenientes de oito nações e de quatro Igrejas cristãs. 

O ponto da situação do caso divide-se entre as investigações e a forte polémica sobre o destino da sua vasta obra artística. 

As Acusações e a Expulsão dos Jesuítas 

Rupnik foi acusado por dezenas de mulheres (a maioria antigas religiosas da Comunidade Loyola, na Eslovénia), de abusos cometidos ao longo de várias décadas (desde os anos 1980/1990). Os relatos apontam para o uso da sua autoridade espiritual e teológica para justificar e forçar os abusos.  

Em junho de 2023, Rupnik foi formalmente expulso da Companhia de Jesus (Jesuítas) por desobediência obstinada, após ter recusado cooperar com as investigações internas e violado as restrições de mobilidade e ministério que lhe tinham sido impostas.

O Julgamento Canónico no Vaticano 

Inicialmente, o Dicastério para a Doutrina da Fé tinha arquivado o caso devido à prescrição dos crimes. Contudo, após intensa pressão pública e das vítimas, o Papa ordenou a revogação do prazo de prescrição para permitir que as denúncias fossem formalmente julgadas. O Vaticano nomeou, então, um tribunal composto por cinco juízes independentes para avaliar o processo penal canónico.  

A Sala de Imprensa da Santa Sé desmentiu categoricamente boatos de que Rupnik teria sido absolvido, reafirmando publicamente que o julgamento continua a decorrer sob sigilo e sem veredicto anunciado.  

A Polémica das Obras de Arte 

Marko Rupnik assinou mosaicos em mais de 200 santuários e igrejas pelo mundo fora. A presença destas obras tem gerado discussões profundas sobre se a arte deve ou não ser separada dos crimes do autor, com diferentes santuários a tomar posições distintas. 

O Santuário de Lourdes, em França, decidiu cobrir permanentemente os mosaicos de Rupnik localizados na fachada da basílica para proteger a sensibilidade dos peregrinos e vítimas de abusos. 

No Santuário de Fátima mantém-se o gigantesco painel de 500 metros quadrados na Basílica da Santíssima Trindade. Os bispos portugueses e a liderança do santuário optaram por manter a obra, não ponderando removê-la nem cobri-la, uma decisão que continua a atrair fortes críticas de associações de vítimas. 

“Não ponderamos retirá-lo nem cobri-lo” 

Ao Notícias de Ourém, essa posição é reafirmada: “o Santuário de Fátima repudia liminarmente os atos cometidos pelo padre Marko Rupnik e já expressou a sua solidariedade para com as vítimas. 

Quanto ao painel em mosaico do Centro Aletti, que se encontra na Basílica da Santíssima Trindade, não ponderamos retirá-lo nem cobri-lo. No entanto, desde que tomámos conhecimento das denúncias contra o padre Rupnik, suspendemos a utilização da imagem da obra, no seu todo e em parte, nos nossos materiais de divulgação”. 

Um dilema de vários países 

Mas não só em França ou Portugal se debate este assunto. Vaticano Cracóvia, Washington e Brasil também tem obras de Putnik nas suas igrejas e enfrentam dilemas semelhantes.  

A polémica permanece em aberto, dividindo opiniões entre fiéis que conseguem separar a arte sacra da biografia do artista e aqueles que defendem que um espaço dedicado à cura espiritual não pode ostentar a assinatura de um abusador em série. 

É, pois, natural, que este tema vá ressurgindo, até porque há vítimas do padre a viver em Portugal que descrevem a sensação de confrontar a sua arte em locais sagrados como uma “invasão interior” violenta. 

Recorde-se que a intenção de construir uma nova igreja no Santuário de Fátima remonta a 1973, para receber todos os peregrinos a que a Basílica de Nossa Senhora do Rosário, já não conseguia dar resposta. Em 1997, o Santuário organizou um concurso internacional, do qual resultou a seleção do arquiteto grego Alexandros Tombazis, com um projeto que previa a construção da nova igreja ao fundo do Recinto de Oração, junto à Praça de Pio XII. 

A Igreja da Santíssima Trindade foi dedicada em 12 de outubro de 2007 pelo cardeal Tarcisio Bertone, então Secretário de Estado do Vaticano e legado de Bento XVI para o encerramento do 90.º aniversário das aparições de Nossa Senhora aos três pequenos pastorinhos.. 

Em 2012, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos concedeu a este templo o título de basílica.