Paço dos Condes | Ourém quer oferecer aos vestígios templários “uma nova narrativa”
Há uma cruz templária gravada em lápides funerárias e há um alambor, sistema defensivo que os Templários trouxeram do Médio Oriente, e descoberto durante as obras de requalificação do Castelo e Paço dos Condes. Vestígios de uma história que o Município de Ourém quer agora tornar mais legível para quem sobe à Vila Medieval. Não basta encontrá-los, diz a vereadora da Cultura, Purificação Reis, é preciso saber o que significam, colocá-los em contexto e integrá-los numa narrativa.
Carla Paixão
É neste enquadramento que a Rota dos Templários Portugal pode ganhar outra dimensão. A rede, que Ourém integra, reuniu na quarta-feira, 16 de Setembro, no Paço dos Condes, representantes de vários municípios e entidades parceiras para discutir o futuro do projeto, a valorização do património templário e novas formas de o dar a conhecer.
“Ourém integrou a Rota dos Templários em março de 2025, através da assinatura de um protocolo de colaboração que resulta de uma parceria entre o Turismo de Portugal, as Entidades Regionais de Turismo do Porto e Norte de Portugal, do Centro de Portugal, do Alentejo e Ribatejo, a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, e vários municípios da região”, recorda Purificação Reis, vereadora da Cultura da Câmara de Ourém, em declarações ao Notícias de Ourém.
A adesão não surgiu, segundo a autarca, apenas da vontade de integrar uma nova rede turística. Foi o resultado das descobertas feitas nas campanhas arqueológicas realizadas no território.
“Têm sido encontrados diversos vestígios que ligam este território aos Templários. Desta forma a integração na Rota dos Templários surge de uma forma natural enquanto oportunidade estratégica para reforçar e promover a sua identidade e património histórico, ao mesmo tempo que poderá beneficiar do aumento do fluxo turístico e do desenvolvimento económico associado à Rota dos Templários”, refere a vereadora.
A reunião técnica estava prevista para Março, mas acabou adiada devido à tempestade Kristin. O encontro aconteceu agora, depois da reabilitação do Paço dos Condes, num edifício que o Município pretende transformar também num lugar de interpretação da história do conjunto monumental da Vila Medieval de Ourém.
Os parceiros discutem a esta altura o modelo de governança da Rota, com Ourém no grupo de trabalho que irá estudar propostas para o futuro do projeto. Participação que Purificação Reis justifica pelo reconhecimento do seu “valor enquanto ativo importante para a promoção cultural e turística do concelho”.
O que as escavações trouxeram à luz
Na Vila Medieval, a história dos Templários não está apenas nos livros ou nos mapas da rota. Está nas pedras. As escavações arqueológicas têm revelado elementos que permitem estabelecer uma relação entre o território e a presença da Ordem do Templo.
“Os vestígios mais significativos relacionam-se com as lápides funerárias com a inscrição da Cruz dos Templários e o Alambor que foi colocado a descoberto no decorrer das obras de requalificação do conjunto monumental do Castelo e Paço dos Condes em 2020. Estes vestígios evidenciam a presença e a influência dos Templários no Concelho de Ourém”, conta a vereadora.
Mas entre a descoberta arqueológica e a sua compreensão há uma distância. E, é essa distância que o município quer preencher com investigação. “Entendemos que os vestígios, por si só, não nos permitem compreender nem interpretar a presença templária em Ourém”, refere Purificação Reis.
Por isso, a autarquia contratou o investigador Ernesto Jana, membro do Comité Científico Português da TREF — Templars Route European Federation, para estudar a presença dos Templários no território. O estudo deverá estar concluído e ser entregue até ao final do ano.
“A narrativa daqui resultante será depois integrada no projeto de musealização do Castelo e Paço dos Condes, por forma a garantir a interpretação da presença templária no território do concelho de Ourém”, esclarece a vereadora da Cultura.
A palavra-chave é, portanto, interpretação. O município não pretende fazer da presença templária a explicação total da Vila Medieval, mas acrescentar essa camada à história de um lugar que a ultrapassa.
“Apesar de a Vila Medieval e, em particular, o Castelo e Paço dos Condes, encerrar uma história que vai muito além da presença templária em Ourém, acreditamos que a integração na Rota dos Templários pode ajudar a colocar a Vila Medieval num circuito diferenciado de visitação”, aponta Purificação Reis, antecipando que a própria Rota poderá servir para ligar o conjunto monumental a outros recursos do concelho.
Uma história para ver, mas também para experimentar
A transformação dos vestígios em narrativa terá ainda uma componente tecnológica. A Rota dos Templários aposta em experiências de visita diferenciadoras, inclusivas e imersivas, recorrendo às novas tecnologias. Ourém quer seguir essa tendência sem deixar que a tecnologia se sobreponha ao monumento.
“A exposição e sobretudo a interpretação dos vestígios e da presença templária no concelho de Ourém dependerão do recurso a tecnologias que promovam experiências inclusivas e que conduzem à descoberta do conjunto patrimonial do Castelo e Paço dos Condes, como de resto tem acontecido noutros municípios que integram a Rota, como é o caso de Tomar, Vila Nova da Barquinha ou Dornes”, adianta Purificação Reis. E acrescenta: “A interpretação da presença templária no discurso expositivo que neste momento se projeta para o Castelo e Paço dos Condes integrará a história mais abrangente deste conjunto monumental, mantendo intacto o seu valor histórico e patrimonial.”
A ideia é que a musealização não termine na porta do Paço. O Município espera que uma visita mais demorada ao monumento ajude também a prolongar a permanência dos visitantes na Vila Medieval e no concelho.
Há, porém, um problema por resolver antes que essa experiência possa ser plenamente concretizada. Chegar com facilidade ao núcleo histórico. Para tal, Ourém aposta no futuro acesso mecânico ao Castelo e à Vila Medieval.
“Temos grande expetativa de que o acesso mecânico ao Castelo e à Vila Medieval, cujo lançamento do concurso já foi aprovado, venha a resolver os problemas da acessibilidade ao núcleo histórico, permitindo o aumento da visitação e o aumento da participação nas iniciativas culturais, de grande qualidade, desenvolvidas na Vila Medieval, como os Fins de tarde no Castelo e o Festival de Setembro”, partilha Purificação Reis.
A reunião da Rota serviu, sobretudo, para fazer o balanço do trabalho dos parceiros, analisar projetos para candidaturas ao programa “Crescer com o Turismo”, discutir formação e preparar o 2.º Encontro Nacional da Rota dos Templários, marcado para Novembro, em Idanha-a-Nova.
Para lá da integração numa rota turística, em Ourém, o desafio passa por investigar os vestígios templários, construir e interpretar a sua história, e encontrar a melhor forma de a contar a quem visita a Vila Medieval.

