Associação do Luxemburgo ajuda famílias afetadas pela Kristin 

Dezasseis famílias de Ourém afetadas pela tempestade Kristin receberam esta segunda-feira eletrodomésticos para substituir bens perdidos na noite de 28 de janeiro. A ajuda chegou oito meses depois, no âmbito de uma campanha de solidariedade promovida Associação Cultural e Humanitária da Bairrada no Luxemburgo.

Carla Paixão

Oito meses depois da tempestade Kristin, 16 famílias de Ourém receberam esta segunda-feira, 14 de setembro, eletrodomésticos para substituir alguns dos bens perdidos na noite de 28 de janeiro. A entrega decorreu no Centro Municipal de Exposições e resultou de uma ação de solidariedade promovida pela Associação Cultural e Humanitária da Bairrada no Luxemburgo. 

Foram entregues 14 máquinas de lavar roupa, além de fornos de convecção e cafeteiras elétricas. As famílias foram identificadas pelos serviços municipais entre os agregados que continuam a necessitar de apoio na reposição de bens essenciais. 

A iniciativa contou com a presença do Comendador Rogério Oliveira, presidente da associação, e do empresário Miguel Manaia, responsável pela doação dos equipamentos. O apoio surgiu na sequência do contacto entre os dois no âmbito da campanha de solidariedade desenvolvida pela associação após a tempestade. 

Rogério Oliveira não escondeu a emoção ao reencontrar, nas famílias atingidas pela Kristin, uma parte da própria história. “Eu nasci na miséria, na Bairrada, em Portugal, há 80 anos, e sei o que é a miséria. A minha falecida mãe nunca teve casa, vivia numa barraca. Não foi uma tempestade, foi a vida que era assim. Portanto, eu sei mais ou menos o que é isto”, afirmou. 

Foi essa experiência que, explica, o levou há décadas a dedicar-se à ação social no Luxemburgo. “Felizmente, hoje não preciso. Estou bem na vida, posso dizer, graças a Deus. As minhas filhas estão formadas, fiz uma vida muito boa no Luxemburgo como comerciante, e fui muito bem acolhido. Por isso, há décadas que me dedico à área social, para ajudar quem precisa mais do que eu.” 

“Correu no mundo inteiro esta desgraça” 

Quando as imagens da tempestade chegaram ao Luxemburgo, Rogério Oliveira diz ter ficado profundamente abalado. “Correu no mundo inteiro esta desgraça. Eu fiquei chocado, chorei. Pensei: ‘Portugal não merece isto, os coitados não merecem isto.’” 

A associação decidiu então canalizar parte da ajuda para Ourém. “Inicialmente tínhamos pensado em vários municípios e optei por Ourém. Tenho boas informações sobre a forma como Ourém deu resposta àquela tragédia. Disseram-me que Ourém precisava de ajuda e que era um concelho muito bem organizado, e eu achei que merecia ser ajudado.” 

No dia da entrega dos equipamentos, Rogério Oliveira diz ter confirmado que a escolha de Ourém “foi acertada”: “De facto, impressionou-me a organização que estava aqui, com as pessoas presentes, como nós pedimos. Queremos ver as pessoas, saber da sua história. Não é mandar tudo para aí e depois não saber o que acontece. Aqui, os bens foram entregues diretamente a quem precisa e as pessoas foram recebidas com respeito.” 

Para o presidente da Câmara de Ourém, Luís Miguel Albuquerque, a entrega destes equipamentos ocorre num momento em que os efeitos da tempestade ainda permanecem visíveis no concelho, apesar de “muito já ter sido feito”.  

“Passaram alguns meses e, felizmente, acredito que hoje a situação já não será tão grave como foi no início”, afirmou o autarca, lembrando a intervenção municipal na floresta, na retirada de material lenhoso e na recuperação de espaços públicos e habitações. 

O presidente da Câmara revelou, no entanto, que os serviços sociais têm ainda identificadas “muitas famílias que precisam de apoio”: “Há pessoas que ficaram sem nada, que ficaram sem casa e que ainda hoje estão a viver em soluções provisórias. Essas pessoas querem, naturalmente, ter a sua casa restaurada e nós vamos continuar a precisar de auxílio para conseguir concretizar esse objetivo.” 

Segundo Luís Miguel Albuquerque, foram mobilizados mais de quatro milhões de euros para a recuperação de casas e edifícios destruídos, bem como de equipamentos e instituições afetados pela tempestade. “Esse trabalho está a decorrer. Felizmente, hoje já há sinais visíveis de recuperação e algumas dessas estruturas estão já recuperadas”, informou o autarca.  

A entrega dos eletrodomésticos doados pela associação do Luxemburgo junta-se a outros apoios mobilizados, desde janeiro, por instituições, empresas e particulares. 

“Alguma esperança para o futuro” 

Para Rogério Oliveira, o apoio não se esgota nos bens entregues. “A questão da dignidade é muito importante. A forma como as pessoas são recebidas, sobretudo as pessoas que precisam mais do que nós, tem de ser digna. É preciso ouvi-las e dar-lhes algum amparo, alguma esperança para o futuro.” 

A associação que dirige, criada há cerca de três décadas no Luxemburgo, desenvolve ações de apoio a pessoas e instituições em Portugal. Segundo Rogério Oliveira, já foram entregues mais de 600 mil euros em donativos, entre equipamentos destinados a famílias, bombeiros e instituições.

Em Ourém, a entrega teve também um significado especial para o dirigente associativo. Passei por isso até aos 14 anos de idade. É comovente. Todos nós, dando um pouco de nós próprios, conseguimos tornar as coisas mais fáceis para os outros”, refletiu. 

Luís Miguel Albuquerque destacou, por sua vez, a mobilização que se seguiu à intempérie. “Se esta tempestade trouxe alguma coisa de positivo para Ourém, foi esta onda de solidariedade. Foram muitos os gestos de entreajuda a que assistimos e que fomos acompanhando desde os primeiros momentos, e este é mais um exemplo de uma solidariedade que merece ser reconhecida e agradecida.”