“Uma profissão não tem de estar designada para o feminino ou o masculino”
Mulheres na construção civil
A presença das mulheres em postos de trabalho em áreas como a construção civil, profissões tradicionalmente associadas aos homens, tem vindo a aumentar. Apesar de não existirem dados estatísticos, este trabalho invisível é feito por muitas mulheres que veem na construção uma carreira. O Notícias de Ourém procurou dar voz a duas jovens oureenses, Marisa Rodrigues e Marta Antunes, que encontraram, de forma acidental, as suas profissões.
EVA GOMES
Em 2021, o Instituto Nacional de Estatística (INE) apontava que as mulheres representavam 7,2% da força de trabalho na construção civil. Os dados, desde então, são escassos sobre o número real de trabalhadoras.
Por norma, adotam cargos de fiscalização, higiene e segurança no trabalho e direção. Mas existe ainda uma franja, menos visível, que ocupa funções de trabalho braçal.
Marisa Rodrigues é um desses exemplos. É eletricista numa empresa de construção civil. Tem qualificações como Eletricista Industrial, apesar de, hoje, exercer a profissão no âmbito da construção.
É a única mulher no seu setor, na empresa onde trabalha. “Mas é tranquilo, não é um problema”, afirma. Passa os seus dias de volta de fios elétricos e pequenas peças, fascinada por poder fazer algo com as suas próprias mãos.
De momento, está a construir quadros elétricos para habitações. “Não é bem a minha área, mas até que não desgosto”, conta. Com as suas mãos minuciosas, compõe o esqueleto do quadro elétrico que tem à sua frente.
Marta Antunes é a típica faz-tudo. Trabalha “mesmo nas obras, a recuperar casas e construir telhados”, como ela explica. Juntou-se ao seu pai que tem um negócio de recuperação de habitações e, agora, “sou mesmo empregada oficial dele”.
Os seus dias são passados a fazer baldes de cimento, a construir muros e a andar em cima de telhados. “Faço sempre coisas diferentes, o meu trabalho não é nada monótono”, diz Marta.
Estas jovens são apenas exemplos num universo que tem tido um crescimento contínuo. A construção já não é um mundo exclusivamente masculino.
Eletricista com certeza
Marisa Rodrigues esteve muitos anos emigrada em França. Fez lá uma parte do seu percurso académico, apesar de não ter terminado o 12º ano em território francês. A jovem conta que começou a trabalhar cedo. “Não estudei até muito tarde e comecei por um trabalho mais físico, nas limpezas”, refere.
“Pronto, um trabalho mais típico das mulheres”, acrescenta.

Passados três anos começou a ter alguns problemas de saúde associados ao trabalho que fazia. Passava os seus dias num trabalho que requeria muito esforço físico, principalmente a carregar pesos, prejudicando a sua saúde. As dores recorrentes fizeram com que repensasse a sua vida.
“Cheguei a um ponto que percebi que isto não era para mim, porque se estou a começar a ter estes problemas tão jovem, como é que ia chegar aos 30 ou 40 anos?”, questionava Marisa.
“Sou também uma pessoa que não se contenta, gosto de progredir e, se pudesse, estava sempre a estudar”, explica.
Despediu-se e começou a procurar outro emprego. Completamente ao acaso, surgiu uma oportunidade, através de uma empresa de trabalho temporário, de fazer uma formação para eletricidade naval.
“Comecei por estranhar, porque entendia como se não fosse algo para mulher”, reconta. Pensava até que seria a única mulher nesta formação, o que a levou a ficar mais reticente. “Ninguém quer ser a primeira”, justifica.
Na realidade, não era a única mulher na formação. “Éramos quatro raparigas e quatro rapazes”, afirma. Concluiu a formação, mas não era bem a área que gostava. Como era um curso voltado para a área naval, a perspetiva de trabalhar dentro de estaleiros pequenos, a bordo, não a atraía.
“Estive lá uma semana, mas percebi que não era para mim, estar ali fechada”, conta, entre risos.
Como ficou interessada na área da eletricidade, procurou uma outra formação, desta vez de eletricidade industrial. “Acabei essa formação e comecei a trabalhar como eletricista. Afinal, foi um mero acaso”, diz Marisa, acrescentando que quando estava no seu nono ano de escolaridade tinha querido seguir um curso de Energias Renováveis.
A sua família viu com naturalidade esta decisão de carreira. Se bem que o seu marido, no início, estranhou. “Disse-me: tu eletricista?”, reconta Marisa, explicando que o choque inicial partiu de uma preocupação relativa ao ambiente de trabalho, que é composto maioritariamente por homens.
Mãos na massa (de cimento)
Marta Antunes, à semelhança de Marisa, esteve emigrada, em França. Por lá, trabalhou como empregada de balcão em lojas de roupa. “Era aborrecido”, confidencia a jovem.
Regressada a Portugal, arranjou emprego num hotel, “mas fiquei insatisfeita com colegas de trabalho e preferi sair”. Vivia com os seus pais e, no tempo em que estava desempregada, ajudava no que podia.

O seu pai, que tem um negócio de recuperação de casas, precisava de uma ajuda extra numa das empreitadas em que estava a trabalhar. “O meu pai perguntou-me se queria ir ajudá-lo numa obra não muito longe, e eu aceitei”, conta Marta.
Um trabalho que achava que ia ser apenas temporário, tornou-se algo mais definitivo, “e agora já sou empregada do meu pai, oficialmente”.
Marta não estranha esta profissão que exerce, porque teve, desde pequena, o exemplo do seu pai, que trabalhava na área. Lembra-se de chegar a ajudar o pai a fazer “um acrescento” na casa onde residiam em França, quando tinha 12 anos. “Aprendi cedo a fazer um pouco de tudo”, conclui.
“Mesmo em Portugal ajudei a pintar uma parte da casa e carreguei blocos, entre outras coisas. Acaba por fazer um pouco parte de mim”, diz a jovem.
Marta vê o seu trabalho na construção civil como uma forma de também ela crescer pessoalmente. Tem 24 anos e “muitos planos”. “Sempre fui muito introvertida e, desde que comecei a trabalhar com o meu pai, fui começando a ter contacto com muitas pessoas e acabei por superar essa ansiedade social”, explica.
“E também é um trabalho diferente todas as semanas. E é giro”, afirma a jovem. O seu ofício não é monótono, sendo que tem sempre novas tarefas a realizar. E novas máquinas para utilizar.
Foi incentivada pelos seus pais a ficar a trabalhar na construção civil. O que, para Marta, foi uma benesse. “Surpreendentemente, acabei por criar uma conexão com o meu pai que eu não tinha”, explica.
Estar a trabalhar, por vezes sozinha com o seu pai, permitiu que pudesse, “finalmente, estar mais tempo com ele, porque quando era mais nova raramente o via, porque ele estava sempre a trabalhar”. Trabalhar nas obras com o seu pai permitiu estabelecer um laço que não existia. “Mesmo que passemos a vida a picar-nos um ao outro”, complementa, em tom de piada.
Deveriam existir mais reportagens e sensibilização sobre mulheres em trabalhos considerados masculinos, para habituar a população a esta realidade e mostrar este trabalho invisível
Contra os estereótipos
“Acho que Portugal é muito retrógrado, comparado com outros países europeus”, sentencia Marisa. Em França, estava habituada a ver mulheres em profissões semelhantes à sua, mas em Portugal isso não se verifica.
“Meio que é incutido aqui (Portugal) às mulheres não seguirem este ramo de eletricidade, por exemplo. Porque pensam que é um trabalho para homens, porque é “pesado”, mas não é”, afirma a jovem.
Marisa acredita que as mulheres portuguesas são, de certa forma, barradas deste tipo de profissões, através da passagem deste tipo de valores e da separação de profissões por género.
“Aliás, muitas mulheres trabalham em lares, onde o trabalho é muito mais pesado”, sublinha. “Claro que nas obras é exigido muito esforço físico, mas hoje em dia há máquinas para tudo, uma mulher pode trabalhar na construção”, diz a jovem.
Sentiu-se reticente quando voltou para Portugal, pois “não é muito comum ver mulheres a trabalhar na construção”. Mas decidiu arriscar, até porque, como ela diz, “há falta de mão de obra na construção, então trabalho haveria de arranjar”.
Marta, ao contrário de Marisa, nunca se sentiu hesitante em exercer o ofício que hoje desempenha. Talvez, como ela explica, por na sua família ter tido sempre o exemplo dos seus familiares a ajudar nas obras domésticas. E por ter sido incentivada a “saber fazer de tudo”.
“Vivo muito no meu mundo e não me preocupo realmente com o que os outros possam dizer ou achar sobre mim”, demonstrando a sua confiança.
“O pior da profissão para mim é não poder me vestir como gosto, porque sou um bocadinho vaidosa”, afirma, entre gargalhadas, a jovem.
Conta que acha engraçadíssima a reação das pessoas quando diz trabalhar nas obras. “ ‘Como é que consegues trabalhar com essas unhas?!’ É sempre a primeira reação, seja onde for, no médico ou onde seja, a reação é sempre a mesma”, afirma. Como explica a quem a questiona, usa luvas para trabalhar, portanto as unhas arranjadas e grandes não são um problema.
“Acabam por achar estranho, essencialmente, por ser bastante nova e por existir outras oportunidades que acreditam que se encaixariam melhor”, e, especialmente, por existir a perceção que é um trabalho muito pesado. Marta desmistifica. “Não é pesado, até porque, com as máquinas que hoje temos, é acessível”, desvenda.
“Acredito, no entanto, que é importante mostrar que as mulheres também trabalham na construção, que é essencial dar a conhecer a minha história”, reconhece Marta.
Marisa concorda com esta perspetiva, especialmente pelo que observa no país lusitano. Conta que vê, na sua maioria, curiosidade.
“Quando vou a serviço a um lar de idosos, comentam sempre ‘Ah uma mulher eletricista?’, porque como não é comum as pessoas ainda se admiram, mas não levo isso a mal”, diz a jovem eletricista.
“Não vou mentir, uma mulher para trabalhar entre homens tem de ter um carácter forte, não se pode diminuir”, acrescenta Marisa. Acredita que é essencial saber estabelecer limites, e mostrar que o género não pode ser um fator de diferenciação no local de trabalho.
Marisa reconta ainda um episódio menos agradável que vivenciou passado pouco tempo de ter regressado a Portugal. “Fui ao Centro de Emprego e disse que estava à procura de trabalho para eletricista. A mulher que me atendeu perguntou-me para quem era esse emprego, ao que respondi que era para mim. Interrogou-me várias vezes se era mesmo para mim este trabalho de eletricista e, claro que, respondi que sim, que era o que eu fazia. No fim, disse-me que não tinha nada para mim, que me podia ir embora.”
A descrença e a dúvida é o que mais incomoda a jovem. Para si não é descabido que uma mulher exerça uma profissão na área da construção, até porque, como salienta várias vezes, em França era comum mulheres trabalharem nessa área.
“Deveriam existir mais reportagens e sensibilização sobre mulheres em trabalhos considerados masculinos, para habituar a população a esta realidade e mostrar este trabalho invisível”, expressa a eletricista.
“É importante que existam tanto mulheres como homens nas várias profissões, é bom existir mistura, uma profissão não tem de estar designada para o feminino ou o masculino”, sublinha Marisa. Não acredita em quotas, no entanto, porque “ao fim e ao cabo não quero ser contratada devido ao meu género, mas sim pela minha capacidade e profissionalismo”.

