Aluimento de terras obriga à evacuação de habitações na Rua de São João 

Vila Medieval de Ourém 

Um aluimento de terras na Vila Medieval de Ourém, no sábado, 7 de fevereiro, colocou em sobressalto os habitantes da Rua de São João que foram obrigados a abandonar de imediato as suas casas como medida de precaução. A rua foi interditada e o acesso a todos os edifícios proibido 

Por Carla Paixão

“Foi ao lado da sede da Sociedade Filarmónica. A água levou as terras, levou tudo, escavou por debaixo da casa. Tivemos de evacuar as pessoas e agora estamos à espera do que vai acontecer”, conta Alexandre Faria, presidente da Junta de Freguesia de Nossa Senhora das Misericórdias. 

Em causa estão seis edifícios, dos quais apenas três são habitados permanentemente, para além da “casa da Banda”. Apesar de o aluimento incidir sobretudo abaixo de uma das habitações, o autarca alerta que “todas as outras estão em perigo”. Por essa razão, “as pessoas foram retiradas”, até que exista “uma avaliação técnica mais conclusiva, que garanta condições de segurança”. 

No local estiveram técnicos especializados, tendo sido realizada uma ancoragem de emergência numa das estruturas contíguas, que apresentava sinais de degradação e risco de colapso. A intervenção visou reforçar a estabilidade do edifício e reduzir o perigo de novos deslizamentos. 

As famílias residentes foram evacuadas preventivamente, numa operação acompanhada pela Junta de Freguesia. “Prestámos apoio na retirada de alguns bens, dentro do possível, face à incerteza quanto à evolução da situação”, refere Alexandre Faria. Desde então, equipas técnicas deslocam-se regularmente ao terreno para monitorizar as condições de segurança. 

Também especialistas do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) estiveram na zona afetada. Contudo, as condições meteorológicas adversas têm condicionado uma análise definitiva. “Com este tempo não é possível realizar uma avaliação rigorosa. É necessário aguardar pela estabilização das condições atmosféricas”, explica o presidente da Junta. 

A continuidade da chuva mantém o cenário de incerteza. “A situação é preocupante, sobretudo porque a instabilidade pode agravar-se com a precipitação persistente”, sublinha. 

Questionado sobre eventuais fatores que possam ter contribuído para o aluimento, Alexandre Faria admite que a área apresenta fragilidades conhecidas. “Olhando para esta encosta, percebe-se que é uma zona sensível. As escavações realizadas no fundo do talude podem retirar sustentabilidade às terras, facilitando deslizamentos.” 

Sem apontar responsabilidades diretas, o autarca reconhece, contudo, o impacto dessas intervenções. “Não me compete avaliar a legalidade das obras, mas é evidente que qualquer alteração no suporte natural das terras pode influenciar a estabilidade.” 

Segundo o presidente da Junta, a conjugação de vários fatores meteorológicos tem agravado os riscos. “Temos registado chuva intensa, vento forte e um volume significativo de água. E ainda a vulnerabilidade associada a construções antigas, ruínas e património histórico existentes na zona.” 

Alexandre Faria sublinha ainda que a área envolvente ao Castelo levanta preocupações acrescidas. “Esta zona exige uma atenção diferente e é particularmente difícil de intervencionar. Estamos a falar de monumentos e património histórico, o que condiciona qualquer ação.” O autarca lamenta as limitações impostas pelos regimes de proteção patrimonial, alertando para a degradação progressiva das estruturas. “Pouco a pouco, vamos assistindo à perda destes patrimónios. Quando houver intervenção, poderá já ser tarde.” 

Na Vila Medieval residem várias famílias em permanência. “Serão cerca de seis, sete ou oito famílias, não mais do que isso”, estima Alexandre Faria. Mas, lembra que, para além da componente habitacional, os constrangimentos sentidos naquela zona, têm sempre impacto na atividade económica local, nomeadamente nos estabelecimentos comerciais e de restauração. 

“Há negócios que dependem da dinâmica da Vila e que enfrentam agora grades dificuldades”, assinala o autarca, aludindo aos impactos do mau tempo sentido nas últimas semanas e às consequências das tempestades.  

Apesar de reconhecer que outras freguesias do concelho sofreram danos mais extensos devido às condições meteorológicas, Alexandre Faria sublinha que os impactos em Nossa Senhora das Misericórdias assumem características específicas. “Aqui temos habitações, património histórico, empresas, atividade económica, o que torna a situação mais complicada.”