Sexualidade nas escolas 

Há uma evidente diferença entre “sexo nas escolas” e “sexualidade nas escolas”. Fez furor nas redes sociais por este dia mais um título bombástico de um jornal, a dizer que o governo quer menos sexo nas escolas. Nem podemos dizer que é natural, é sobretudo ridículo. 

Não se trata de “menos sexo” o que está atualmente em discussão. O que agora se questionou foi a abordagem do tema da sexualidade, de forma estruturada, nas aulas de Cidadania.  

Assisti ao longo de muitos anos, por força da minha missão de professor, a inúmeras conferências destinadas aos alunos, conduzidas por enfermeiros, psicólogos e forças de segurança da Escola Segura, sobre as múltiplas facetas da sexualidade entre os jovens. 

Os temas vão desde violência no namoro, pressões psicológicas, doenças, expressão de afetos, até gravidez indesejada e meios contracetivos. Sim, e também sobre tolerância relativamente às opções pessoais de género. Tudo em temas muito bem enquadrados e de profundo interesse educativo. A atenção, a participação, as dúvidas colocadas pelos alunos, mesmo superando grandes doses de timidez, são testemunho da importância destas sessões. 

Recentemente, contudo, foi suscitada na opinião pública uma reação ignorante sobre os perigos imaginários de tratar estes temas junto dos jovens. O alarme social tornou-se uma moda. Uma certa facção ideológica muito puritana, e que não se informa sobre o que realmente se passa, lançou o alarme falso de que as escolas estão a “doutrinar” as crianças para comportamentos que eles acham desviantes. A única coisa que conseguem vislumbrar é o tema da identidade de género. A sigla LGBT é a única coisa que conseguem articular sobre o tema. E isso é doentio. 

Os programas de Educação para a Saúde, incluindo a saúde reprodutiva, atravessaram governos de esquerda e de direita nas últimas décadas, mesmo em alguns bastante conservadores como de Cavaco Silva, com o reconhecimento da importância e pertinência para a sociedade. Sinto-me apreensivo com este novo posicionamento. A partir de equívocos intencionais, pretendem esconder na clandestinidade, no domínio do tabu, um assunto que é estruturante. 

E é estranho como um ministro muito ponderado, como o atual ministro da educação, promova uma iniciativa que parece saída de um qualquer entendimento de bastidores com uma força política emergente deslumbrada com a nova palavra estrangeira “woke”. Numa tradução ligeira, “woke” foi o termo da moda aplicado a tudo o que pareça moderno e progressista. Mas a sexualidade não é nem moderna nem progressista. É um tema de todas as épocas. 

Para muitos alunos, as sessões com os agentes da GNR, com os psicólogos e enfermeiros, eram um momento de descoberta e de alerta para perigos escondidos em que nunca tinham pensado. Quando, por exemplo, lhes é explicado como devem evitar ou denunciar relacionamentos violentos, quando aprendem a respeitar o próprio corpo e o corpo dos outros; ou quando têm um vislumbre do que é uma gravidez precoce não desejada, tudo isso é formação cívica. 

Substituir isto pelo tédio enorme da “Literacia financeira”, para aprender o que são juros, empréstimos, bolsa de valores… é uma ideia deprimente. 

Espero vivamente que a consulta pública que decorre até início de agosto seja ocasião para trazer muito mais esclarecimento, que vá além da espuma histérica dos comentários ignorantes nas redes sociais. 

JF