Se até a Lua beija Marte
Ana Freire
Na próxima segunda-feira, 28 de julho, vai acontecer um daqueles encontros no céu que vale a pena espreitar: a Lua e Marte vão estar quase a tocar-se, num alinhamento bonito e raro. O tipo de coisa que passa depressa, mas que deixa marca em quem para uns minutos para olhar.
Por volta das 19h43, os dois astros vão estar no ponto mais próximo um do outro. A essa hora o céu ainda estará claro, mas um pouco mais tarde, depois das 20h00, já os devemos conseguir ver bem: a Lua, fininha, recém-nascida, ainda jovem e delicada, irá passar bem perto de Marte, que, numa bolinha discreta avermelhada, tentará passar despercebido.
Este evento tem o nome de conjunção — dois corpos celestes, vistos da Terra, parecem muito próximos no céu. Não estão, claro. Estão a milhões de quilómetros, mas na forma como se alinham, e na perspetiva que a Terra nos dá, parecem mesmo lado a lado.
Em algumas zonas do mundo, como partes da América do Sul ou África Central, a Lua vai mesmo tapar Marte durante uns minutos. Aqui, vamos só vê-los dançar, lado a lado, como quem se cruza no caminho e faz uma vénia.
Quem tiver binóculos poderá usá-los, mas nem é preciso. Basta um canto com céu limpo, um pouco de silêncio e tempo para olhar com calma.
E se falo nisto assim, quase com ternura, é porque me lembro da Ti’Mília. Já falei dela aqui — mulher da minha aldeia, que sabia muito sem nunca ter lido nada — dizia que os eclipses traziam o fim do mundo. Um dia, quando lhe disse que ia haver uma noite em que a “Lua beijava Marte”, ela respondeu-me, sem pestanejar: “Acho bem, Aninha. As mulheres têm de mostrar que mandam!” Ela era assim: ora receosa, ora sonhadora. Tinha um fascínio pelo desconhecido, um amor pelos mistérios do universo. Do seu jeito peculiar, ora evocava o medo, ora delirava com os mistérios do céu que, por vezes, eu lhe desvendava a partir das histórias que lia na biblioteca. Era uma eterna romântica que a dureza da vida se encarregou de calejar…
Mas o céu não prega partidas. A ciência diz-nos onde estará cada planeta, mesmo daqui a décadas. Mas há noites em que olhar para cima sabe a memória. A promessa. A oração. Se até a Lua beija Marte, então talvez seja noite de deixar os olhos no céu e o coração mais aberto. Porque há encontros que duram só instantes, mas ficam connosco para sempre.
