O laboratório do ódio 

Até há poucos dias não tinha ouvido falar de Torre Pacheco, em Espanha. Uma cidadezinha perto da costa espanhola do Mediterrâneo, a poucos quilómetros de uma atração turística que se chama Mar Menor. 

Aparentemente nada de muito significativo se passava lá que justificasse presença de câmaras de TV internacionais. Saltou agora para a primeira linha das notícias. Uma perseguição indiscriminada, mas organizada, contra pessoas que se suspeitem ser estrangeiras. Não importa se são legais ou ilegais, basta ter a aparência. 

O termo técnico que os historiadores usam para estas movimentações é uma palavra russa, pogrom, porque ficaram historicamente famosas as perseguições violentas conduzidas contra certos grupos, principalmente judeus, no final do império dos Czares. 

Não foi aí que foi inventada violência indiscriminada contra grupos, mas foi daí que ficou o nome. Num pogrom não interessa se o alvo é boa pessoa, se é um cidadão cumpridor, se tem bons ou mais princípios. Num pogrom a perseguição violenta ocorre por um ódio contra uma classe, um tipo de pessoa. Se alguém pertencer ao grupo religioso, ou étnico ou social odiado, a sua personalidade não conta nada nem a protege da violência. 

Em Espanha, aqui mesmo ao lado, o alvo são os imigrantes marroquinos que se têm instalado na região a trabalhar na agricultura. Lá, como cá, a falta de mão de obra nos setores mais difíceis é uma oportunidade para quem vem de países mais pobres para investir num futuro melhor. Lá, como cá, a deslocação da população jovem para os grandes centros, o envelhecimento médio dos habitantes que vão ficando, deixaram vagos os postos de trabalho para fazer muito do que gera a riqueza daquelas terras. Em Torre Pacheco é principalmente a agricultura, nas quintas que abastecem de produtos frescos tantos supermercados de toda a Europa. 

As comunidades que se instalaram, pelo que temos visto, são trabalhadoras e pacíficas. Mas a crescente divulgação de ideias contra os imigrantes, nas redes sociais e pela voz de partidos extremistas, fizeram crescer em muita gente uma revolta irracional. Acabou por explodir em ondas de violência criminosa contra gente totalmente inocente. 

Segundo vamos percebendo pelas notícias, os criminosos não são sequer  naturais daquela localidade, nem habitam ali. Segundo vamos percebendo, há uma organização qualquer que convoca para ali, vindos de toda a Espanha. Não são os locais que se sentem incomodados com os estrangeiros. Os agressores nem sequer alguma vez se cruzaram com aquelas pessoas agredidas. 

É uma espécie de “laboratório social”, onde vão testando até que ponto conseguem inflamar os ânimos, pela multiplicação de discursos e pela criação de inimigos artificiais. Neste momento vemos que em Espanha há já um número consistente de indivíduos que estão disponíveis para fazer centenas de quilómetros apenas com o objetivo de exercer violência, enfrentar as autoridades, partir, agredir, saquear, apenas motivados por uma ideologia. 

Em Portugal ainda estamos numa fase mais incipiente, ainda estamos só na fase de criar uma ideia de que a pátria está em perigo perante uma qualquer invasão. Já há muita gente a acreditar nisto. Já há muita gente a detestar imigrantes que não conhece, ao mesmo tempo que até se dá bem com os imigrantes que conhece. Em geral, aqueles que são colegas de trabalho, ou que nos atendem ao balcão todos os dias, são tidos como boas pessoas. Mas todos os outros são considerados uma terrível ameaça. E também já estamos a entrar na fase em que grupos organizados recrutam pessoas para criar situações semelhantes às de Torre Pacheco. 

Não basta esperar que a polícia apareça para manter a ordem quando a taça já transbordou. É necessário que o discurso de ódio não seja alimentado inconscientemente todos os dias e que o monstro não se instale livremente até ao ponto de ser incontrolável. 

JF