Vega e Altair: a história de amor escrita nas estrelas
Ana Freire
Se eu pudesse escolher, teria nascido na noite de 7 de julho.
Gosto desse dia. O céu, nessa noite, conta uma história de amor antiga, quase tão antiga quanto as estrelas que a inspiraram: Vega e Altair, dois astros separados pela Via Láctea.
Altair, na constelação de Aquila, está a cerca de 16,7 anos-luz da Terra — a sua luz demora cerca de 16,7 anos a chegar até nós, viajando a trezentos mil quilómetros por segundo. É uma das estrelas mais próximas da Terra, visível a olho nu. Vega, na constelação de Lyra, está mais longe — a cerca de 25 anos-luz da Terra. Foi uma das primeiras estrelas, para além do Sol, a ser fotografada e estudada em detalhe.
No início de julho, logo após o anoitecer, ambas “aparecem” no céu de verão, uma de cada lado da Via Láctea, como um rio a separá-las, o que inspirou lendas e histórias de amor. São dois dos astros mais brilhantes do nosso céu de verão, dois pontos de luz que parecem chamar um pelo outro através do vazio do espaço.
Segundo uma antiga lenda japonesa, Vega é Orihime, a princesa tecelã, e Altair é Hikoboshi, o pastor. Vendo que o amor os distraía dos seus deveres, os deuses condenaram-nos a viver separados, podendo juntar-se apenas uma vez por ano, na sétima noite do sétimo mês.
Li essa história em criança, num dos muitos livros que requisitava da biblioteca, e desde então que queria ter nascido nessa noite. Se olharmos para cima, nessa noite, parece que todas as estrelas brilham com um toque especial, como se iluminassem um amor que resiste ao tempo e à distância, atravessando os séculos e os céus. É como se o próprio universo celebrasse, em silêncio, o reencontro dos dois amantes.
Esse céu oferece-nos algo mais do que beleza — faz-nos sentir uma história de amor contada pelas estrelas. O universo parece ouvir os desejos guardados no nosso coração. solidário com a nossa dor e saudade.
Olhar para Altair nessa noite é como ver alguém que espera, com saudade e esperança. Vega, do outro lado, responde com a sua luz firme e serena. Entre elas, a Via Láctea não é um obstáculo, mas uma ponte de promessas eternas.
Há algo nesta história de separação que lembra amores ficcionais — intensos e marcados pela espera — como o de Elizabeth Swann e Will Turner, condenados a reencontrar-se apenas uma vez a cada dez anos.
E se até as estrelas conseguem reencontrar-se, e Turner consegue navegar entre mundos como se o tempo fosse um oceano, então talvez os nossos sonhos também possam realizar-se.
