AS BÊNÇÃOS DO CRIO 

Uma vez mais, fui ao CRIO (Centro de Reabilitação e Integração Ouriense), para celebrar o seu 46º aniversário. Sempre que ali vou, recebo a bênção dos seus utentes (não gosto da palavra clientes, hoje aplicada a estas pessoas nas instituições de solidariedade social!). Olhares, abraços, apertos de mão e sobretudo a sua alegria contagiante, em abundância. Nem parece que são pessoas com múltiplas feridas. É mesmo assim: quem entra, se entrega e se relaciona de coração e boa vontade com estas pessoas recebe delas bênçãos, ou seja, elas fazem-nos bem, dão-nos paz. Então, de visitantes, cuidadores ou administradores, numa palavra, benfeitores, transformamo-nos em beneficiados, pois somos por elas agraciadas com os dons que possuem. 

Aprendi com o escritor de livros de espiritualidade Henri Nouwen a descobrir esta faceta e aproveito bem dela nos meus encontros com estas pessoas feridas. Num dos seus livros, aquele autor fala da “bênção dos pobres” e ainda do “dom de Adam”. Escreve: “Só pouco a pouco somos capazes de descobrir as bênçãos que os pobres têm a oferecer aos que se preocupam com eles”. E conta um caso com Adam, um homem profundamente deficiente, que não andava por si mesmo nem falava, precisando de ser cuidado em tudo, exceto no comer e beber. Um abade de um mosteiro, numa estadia temporária na casa onde Adam estava, teve de se ocupar dele durante três meses. Passado esse tempo, tendo amado profundamente Adam, confidencia: “Ao passar muitas horas e dias com o Adam, fui conduzido a uma calma interior profunda” e mesmo a uma nova perceção da presença e relação íntima com Deus (cf Aqui e Agora. Vida no Espírito, p. 87-89).  

Como é possível ocupar-se dos pobres, dos deficientes, dos doentes ou dos moribundos, sem ficar desgastado, desolado e amargurado? “A resposta está – escreve Nouwen – em que todos eles são uma bênção para mim, uma bênção que eu preciso de receber. O ministério é, acima de tudo, receber a bênção de Deus através daqueles a quem nós prestamos esse serviço”. Essa bênção é um bem espiritual que nos dá paz e melhor vida: “é um raio da própria face de Deus. O Céu consiste em ver a Deus! Ora bem, nós podemos ver a Deus no rosto de Jesus em todos os que precisam dos nossos cuidados” (idem, p. 86-87). É preciso, portanto relacionar-se com estas pessoas feridas com amor e abertura de coração, em atitude espiritual. Então, não servimos somente, recebemos a bênção de Deus através delas. Foi a experiência que fiz no CRIO! 

Além dos utentes, que são pessoas encantadoras que irradiam simplicidade e alegria de viver, também a própria instituição que as acolhe e delas cuida é uma bênção. Obviamente, em primeiro lugar, para quantos acolhe e cuida com amor, ternura e grande competência profissional. Tudo faz para que ali se sintam em casa, em sua casa! É bênção igualmente para as suas famílias, que encontram na instituição uma preciosa ajuda no cuidado e ocupação destes seus membros feridos. Sozinhas não o poderiam fazer com a necessária competência e qualidade de cuidados que a situação requer. Desta cooperação e partilha de responsabilidades resulta uma bem maior para os portadores de deficiência. Bênção igualmente para quantos dirigem a instituição ou nela trabalham: é exigente e envolvente, é certo, mas ao mesmo tempo torna-se também gratificante conviver e tratar com carinho os mais frágeis. 

A instituição é ainda bênção para a comunidade em que está inserida. Nela se pode encontrar e aprender alguns valores fundamenais da humanidade e das relações humanas. Estas pessoas ensinam-nos a viver em humanidade, a quebrar ou superar barreiras, ressentimentos para se entregar aos outros com simplicidade e ternura. Elas oferecem a todos o seu afeto e alegria. É bom por isso aproveitar todas as oportunidades de relação, presença e ajuda a estas pessoas. Com elas intuímos e aprendemos a viver melhor, centrados no essencial. 

Obrigado a quantos dão vida ao CRIO e o apoiam. 

Padre Jorge Guarda 

Ourém, 11.06.2025