Entre realidade e ficção
Parece, por vezes, que entrámos numa era de pessimismo militante. Tornou-se um clássico, quase uma praga, ouvir falar mal dos serviços, particularmente o Serviço Nacional de Saúde, ora por ter falta de meios, ora por não conseguir garantir as respostas que as pessoas desejavam. Fala-se mal desse e de outros serviços públicos, mesmo quando na realidade prestam um serviço de elevado valor.
Talvez haja mesmo algum fundo de verdade na falta de recursos, mas suspeito que há muita gente a falar mal do que conhece mal.
Vem isto a propósito da minha recente experiência com o Hospital de Santo André, em Leiria, que mudou radicalmente o meu ponto de vista. Por tanto “ouvir dizer”, sem pessoalmente ter conhecimento próximo, eu tinha formado a ideia de que era um lugar caótico, uma desorganização permanente e sem remédio. Tal como, provavelmente, muitas outras pessoas que falam “de fora”. Pelo menos é o alarme que se tem criado a partir dos relatos que se vão lendo e vendo nas TVs. Só que essa não é apenas uma imagem injusta, por ser falsa, é uma imagem absurda por ser o oposto da realidade.
A quantidade de pessoas diariamente atendidas nos serviços, a avaliar pelas filas de entrada e pelas salas de espera (ou pelos parques de estacionamento permanentemente lotados), é impressionante. E se fosse um serviço desorganizado, nunca seria possível gerir todo o sistema. Pelo contrário, o processo de triagem e atendimento são rápidos e muito eficientes.
Em boa verdade, eu já antes tinha um pouco essa ideia favorável, quando ocasionalmente precisava de recorrer à urgência pediátrica. Mas pensava comigo mesmo que talvez aquele serviço fosse apenas a boa excepção no meio de outros serviços que me diziam que funcionavam muito mal. Eu imaginava que, por ser dirigido às crianças, tinha um especial cuidado com a situação frágil dos pequenos doentes. Mas não me parece que fosse exceção. É o normal.
Agora, depois de observar diretamente outros serviços no mesmo hospital, tenho de concluir que as críticas são o resultado de ignorância e de certo espírito tão português que se sente desconfortável a elogiar e só sabe dizer mal.
Os profissionais do Hospital de Leiria merecem o elogio. São prestáveis, eficazes e muito competentes. Os serviços funcionam com extraordinária organização.
Entre nós, parece que dizer mal dá um certo estatuto.
Afinal o tradicional pessimismo português tem andado a vender-nos a ideia de que estamos rodeados de problemas imensos, na saúde, na educação, na segurança, e muita gente só se sente realizada a inventar mais um ou dois. De tanto se repetirem os problemas imaginários, eles acabam por entrar de forma estranha no debate público, e acabam por nos colocar a discutir com base em boatos, em vez de encarar a realidade.
Sabemos que os algoritmos das redes sociais tendem a dar visibilidade ao pessimismo e às críticas negativas. Os especialistas em psicologia social sabem bem que a fúria é um poderoso agente e que os sentimentos de raiva geram bons negócios. Quanto mais polémica for a publicação, mais reações consegue gerar e, portanto, mais receitas publicitárias entrega à multinacional. E mais votos caiem nos partidos de protesto.
Afinal vivemos cada vez mais num mundo obscuro, construído artificialmente para consumo imediato. Precisamos de voltar a olhar mais à nossa volta, criar distanciamento das “opiniões” e confiar menos no “ouvi dizer”.
JF
