Santo Agostinho: um homem antigo e atual 

Ourém recebeu na passada semana a cantata “S. Agostinho, o cantor da sede de Deus”. Muitos corresponderam com uma participação que encheu o Cineteatro. A obra musical relata o percurso humano e espiritual do jovem Agostinho até à sua conversão à fé cristã e à receção do batismo. A densidade do relato e a beleza da música envolveram os espectadores a ponto de suscitar grande emoção e satisfação. Merecem os parabéns tanto os autores como os músicos e os cantores. Entre estes alguns são de Ourém. Bem-hajam! 

A realização deste concerto suscitou em mim a curiosidade de saber que ligação existe entre Ourém e este santo. Perguntei a quem sabia e, pelo menos, descobri que houve um hospital com o seu nome na cidade de Ourém, há um fresco com a sua figura na capela da Conceição, do Olival, e esta região fez parte dos domínios do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, cujos monges, precisamente os Cónegos Regrantes de S. Agostinho, se regiam pela regra agostiniana. Foi aliás esta presença na área da diocese de Leiria que terá levado a que esta ficasse com o santo bispo por padroeiro. 

Santo Agostinho viveu no século IV e V, em período de transição entre o mundo antigo e o medieval. Foi um jovem sedento de vida e de experiências humanas e intelectuais. Não se contentava com pouco nem com qualquer coisa nem na paixão nem na razão. Era um buscador da verdade e da profundidade da vida. Foi um viajante pelo Norte de África, que cedo deixou Tagaste, a sua terra natal, por motivos de estudo e depois, para exercer atividade profissional como professor de gramática latina e retórica, chegou a Roma, à sede do Império e posteriormente a Milão, onde acabou por se tornar cristão, dando grande alegria à sua mãe, Mónica, que muito rezara e chorara para que o filho acolhesse esse dom. Nessa nova condição, regressou ao Norte de África, no desejo de viver numa comunidade fraterna com outros cristãos. Mesmo contra vontade, acabou por ser escolhido para ser sacerdote e depois bispo de Hipona.  

O testemunho do seu percurso está relatado e meditado nas suas “Confissões”, a sua autobiografia espiritual e obra mais famosa. Agostinho escreve em forma de oração louvando e agradecendo a Deus pela sua bondade e amor para com ele. Esse livro é a principal fonte do texto da cantata acima referida. Continua a ser uma fonte importante para quem queira conhecer e compreender os desejos e a busca interior da pessoa humana.  

Agostinho procurou também o diálogo contra os hereges em debates públicos e como mediador de paz. Numa catequese sobre S. Agostinho (16/1/2008), o Papa Bento XVI conta a seguinte iniciativa: “Interveio para promover a paz nas províncias africanas assediadas pelas tribos bárbaras do sul. Neste sentido escreveu ao conde Dário, que foi à África para resolver a discórdia entre o conde Bonifácio e a corte imperial, da qual se estavam a aproveitar as tribos dos Mauritanos pelas suas incursões: “O maior título de glória, afirmava na carta, é precisamente o de suprimir a guerra com as palavras, em vez de matar os homens com a espada, e procurar ou manter a paz com a paz e não com a guerra. Sem dúvida, também os que combatem, se são bons, procuram sem dúvida a paz, mas à custa do derramamento de sangue. Tu, ao contrário, foste enviado precisamente para impedir que se procure derramar o sangue de alguém” (Ep 229, 2). Uma palavra também muito oportuna para os nossos tempos! 

Homem do seu tempo, mestre para muitos na arte da comunicação, da busca espiritual e da vida cristã, pastor zeloso e sábio que nos deixou instruções e pensamentos muito inspiradores, S. Agostinho permanece como referência intelectual e de vida para muitos, também nos dias de hoje. Em Jesus Cristo, Deus verdadeiro, encontrou a verdade e a vida na plenitude que sempre procurou. A ele, diz Bento XVI, “é dirigida uma das orações mais bonitas e mais famosas das Confissões (X, 27, 38)”, como também se proclamou na cantata: “Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Estáveis dentro de mim e eu estava fora, e aí Vos procurava; e disforme como era, lançava-me sobre estas coisas formosas que criastes. Estáveis comigo e eu não estava convosco. Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Mas Vós me chamastes, clamastes e rompestes a minha surdez. Brilhastes, resplandecestes e curastes a minha cegueira. Exalastes o vosso perfume: respirei-o e agora suspiro por Vós. Saboreei-Vos, e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me, e comecei a desejar ardentemente a vossa paz”. 

Na catequese mencionada, o papa Bento XVI testemunha a atualidade deste grande santo: “Quando leio os escritos de Santo Agostinho não tenho a impressão que é um homem morto mais ou menos há mil e seiscentos anos, mas sinto-o como um homem de hoje: um amigo, um contemporâneo que me fala, que fala a nós com a sua fé vigorosa e atual. (…) Assim nos encoraja Santo Agostinho a confiar-nos a este Cristo sempre vivo e a encontrar assim o caminho da vida.”  

Enquanto membros da Ordem Agostiniana, o atual Papa Leão XIV é também filho espiritual do mesmo santo.  

Padre Jorge Guarda 

28.5.2025