Entrevista Luís Serras de Sousa| “As juntas de freguesia têm competências, mas faltam-lhes recursos para responder às necessidades das pessoas”
O presidente da Junta de Freguesia de Nossa Senhora da Piedade, no concelho de Ourém, Luís Serras de Sousa, defende que o poder local precisa de mais meios financeiros e maior autonomia para concretizar projetos e responder às populações. Entre as prioridades do executivo estão a criação de habitação a custos acessíveis, uma horta comunitária e um ponto de apoio aos incêndios. Nesta entrevista, o autarca faz também o balanço da resposta à tempestade Kristin, cujos estragos obrigaram a rever os investimentos previstos e que, quase nove meses depois, continuam a fazer-se sentir na freguesia e no concelho.
CARLA PAIXÃO
A freguesia de Nossa Senhora da Piedade é frequentemente apresentada como o coração do concelho, por acolher a cidade de Ourém. Que retrato faz do território que lidera?
A freguesia é muito mais do que a cidade de Ourém. É verdade que a cidade concentra uma grande dinâmica, sobretudo ao nível dos serviços e do comércio, e que existem também empresas com atividade no território. Mas temos uma realidade rural com expressão, constituída por várias localidades que, no seu conjunto, têm muitos habitantes e famílias. Desde os arredores da cidade, como a Caridade e o Alqueidão, até à zona norte, com Vale Travesso, Louçãs, Vilões e Casal dos Crespos, passando por outras, existe um território que tem características próprias e que precisa de respostas adequadas. A freguesia não está entre as maiores do concelho, mas tem esta complementaridade entre o espaço urbano e o rural.
Que critérios têm orientado a distribuição do investimento entre a cidade e as restantes localidades da freguesia?
Temos procurado investir de forma proporcional. As pessoas que vivem fora da cidade também têm necessidades e devem beneficiar das políticas públicas e da intervenção da Junta de Freguesia. No mandato anterior, fizemos pavimentações em Vale Travesso, melhorámos os espaços exteriores do cemitério e concluímos a casa mortuária e os arranjos exteriores na zona do Pinheiro. Interviemos também em fontanários, nomeadamente nas Louçãs e na Caridade. No Alqueidão, adquirimos um terreno junto ao salão da igreja para desenvolver um projeto de estacionamento e de espaço comunitário. São obras que contribuem para valorizar as localidades e reforçar a sua identidade. O desenvolvimento não pode ser pensado apenas a partir do centro urbano.
A centralidade da freguesia traz vantagens, mas também coloca desafios à gestão. Quais são as principais dificuldades?
A centralidade tem vantagens, porque concentra infraestruturas e serviços e permite reduzir alguns encargos de manutenção e de gestão de equipamentos. Mas temos uma malha rural a que é necessário chegar. Ao nível do abastecimento de água e da energia, a situação está, de um modo geral, assegurada. Já no saneamento básico persistem lacunas. Há obras em curso no Alqueidão, mas continuam a faltar intervenções em zonas como o Favacal, a estrada da Figueirinha, a Cabiçalva, grande parte do Pinheiro, as Louçãs, os Vilões e o Casal dos Crespos. Estamos a falar de muitas famílias e, provavelmente, de mais de mil pessoas.
Para além do saneamento, que outras necessidades continuam por responder?
Há as estradas, os caminhos e os passeios. Gostava de ter passeios em todas as ruas da freguesia, mas isso é impossível. Temos de gerir os recursos disponíveis e definir prioridades. Costumo dizer que ser autarca é um processo inacabado por natureza. Nunca vamos conseguir fazer tudo. Aquilo que nos compete é tomar as melhores decisões em função dos recursos que temos, que são limitados.
Entrevista completa no Notícias de Ourém de 23 de outubro de 2026

