No centro de Ourém nasceu um espaço de culto muçulmano

Uma pequena comunidade muçulmana criou no centro da cidade de Ourém um espaço para rezar e quer transformá-lo num lugar de diálogo. Entre a curiosidade, o preconceito e a desconfiança, o imã Abbas Muhammad assegura que “não há nada para esconder” e deixa o convite: “Vamos conversar. Toda a gente pode entrar. São todos bem-vindos”

Carla Paixão

A poucos quilómetros do Santuário de Fátima, considerado um dos maiores e mais importantes santuários marianos do mundo, há, no centro da cidade de Ourém, um lugar onde, cinco vezes por dia, se reza voltado para Meca. Não tem a dimensão nem as características de uma grande mesquita. É, nas palavras de Abbas Muhammad, uma “sala de culto”, arrendada por uma pequena comunidade muçulmana que vive e trabalha no concelho. 

São pessoas vindas do Bangladesh, do Paquistão, de Angola, da Síria e de Marrocos, com percursos e origens diferentes, mas que encontraram no concelho de Ourém um lugar para viver e trabalhar. “É uma mistura de muita gente”, resume o imã. Apesar da diversidade, reconhece Abba, trata-se ainda de “uma pequena comunidade”, que encontrou ali um ponto de encontro para a prática da sua fé. 

A comunidade muçulmana já fazia parte da realidade de Ourém, mas faltava-lhe um lugar onde pudesse reunir-se para cumprir as orações obrigatórias. Até à abertura da sala, a alternativa era percorrer vários quilómetros até Leiria, uma deslocação particularmente difícil para quem tinha de a conciliar com o trabalho. 

A solução surgiu com o arrendamento de uma loja no centro da cidade. Antes de avançarem, os responsáveis procuraram a Câmara Municipal para esclarecer as condições de utilização do imóvel. “Disseram-nos que era preciso que a licença do espaço fosse para comércio e serviços. Quando existe essa licença, é permitido que também possamos praticar as nossas orações”, explica Abbas Muhammad, lembrando que “em Portugal há liberdade religiosa”. 

No Islão, a oração é uma prática central e os fiéis devem cumprir cinco orações obrigatórias ao longo do dia. Em Ourém, a nova sala permite agora que essa prática seja também vivida em comunidade — uma diferença particularmente relevante à sexta-feira, dia da oração comunitária. 

“Eles andavam quilómetros para conseguir encontrar uma mesquita. Era difícil, principalmente para quem trabalha”, conta o imã. A sala veio, assim, aproximar o culto do quotidiano de quem vive e trabalha no concelho, tornando mais fácil participar na oração sem que a deslocação a Leiria implique uma interrupção prolongada do dia de trabalho. 

Foi na sexta-feira, 21 de agosto, que o Notícias de Ourém acompanhou uma dessas celebrações. Perto de 30 homens reuniram-se na sala para a oração, enquanto uma mulher assistia ao culto num espaço separado por cortinas opacas, sem contacto visual com os restantes participantes. Com os cabelos cobertos e os olhos postos no chão.

Reportagem completa no Notícias de Ourém de 28 de agosto de 2026