Memórias Temperadas com Vinho e História na Taberna do Zé Raul

Puxe a cadeira e sente-se connosco à mesa da Taberna do Zé Raul. Há lugares onde o tempo não passa; adensa-se. Transforma-se em cheiro de tempo suspenso e no murmúrio aconchegante de conversas que atravessam gerações. Em frente à Igreja de Nossa Senhora da Piedade, no coração de Ourém, a Taberna do Zé Raul é um desses redutos raros. Ao entrar, a vista detém-se de imediato nos painéis de azulejos que revestem as paredes — testemunhas em cerâmica produzidas pela antiga Tijomel de Caxarias, fábrica que marcou a história industrial da nossa região e que hoje habita na memória coletiva.
À mesa, a companhia não podia ser mais especial: Ana André, professora do 1.º ciclo do ensino básico, hoje aposentada, cuja vida se entrelaça umbilicalmente com aquele espaço. É filha de Manuel Raul, o segundo proprietário da taberna, e traz consigo um baú inesgotável de recordações.
Para abrir o apetite e a conversa, o ritual da casa cumpriu-se com rigor: pão fresco, azeitonas bem temperadas e queijo da região, escoltados pelo inevitável vinho tinto da casa. Nas escolhas dos pratos principais, a tradição voltou a ditar sentença. A professora Ana André preferiu a confortante Dobrada, prato com assinatura de família cuja receita atravessou décadas até chegar às mãos sábias da atual cozinha liderada por Susana Rodrigues. Da minha parte, optei pelo clássico Bacalhau cozido com grão e batatas, num prato simples, genuíno e irrepreensivelmente bem confecionado.


“Este espaço foi a minha infância, a minha juventude, a minha vida”, confessa Ana André, enquanto o seu olhar vagueia até à fotografia do pai, Manuel Raul, que observa do alto da parede, eternizado atrás do balcão onde trabalhou quase seis décadas. “O meu pai entrou aqui como empregado em 1929 com apenas 17 anos. Dez anos mais tarde, em 1939, comprou o espaço ao primeiro proprietário, o Sr. Raul, irmão de célebre republicano Artur Oliveira Santos, Administrador do Concelho. E por aqui ficou perto de 60 anos.”
As memórias fluem ao ritmo da degustação. Ana recorda como, em miúda, atravessava as ruas a trazer almudes de vinho em braços desde a adega familiar ou como corria ao antigo asilo para buscar blocos de gelo. Evoca também as quintas-feiras de reboliço, quando o mercado e a feira decorriam mesmo ali ao lado e os feirantes acorriam à taberna para beber um copo, guardar mercadorias ou almoçar.
“Mais do que um local de refeições, isto era um ponto de encontro e até de conspiração”, conta. Nos tempos da ditadura militar, entre conversas de balcão e copos de vinho servidos a figuras graduadas e populares, teciam-se planos políticos. Consta que chegou a preparar-se ali uma famosa ação contra o regime que culminaria num atentando na linha do Norte, em Albergaria dos Doze, episódio que custou a prisão a alguns dos frequentadores e ao próprio proprietário de então.
Com o passar dos anos, a simples taberna de copos, peixe frito e postas de bacalhau começou a servir refeições completas pela mão da sua mãe. “Os alunos da Escola Secundária vinham para aqui, fugidos da cantina, comer o ovo estrelado com batatas fritas”, recorda entre risos.
Hoje, sob a gestão atenta e respeitosa de José Alberto Mangas — que herdou a designação popular de “(Zé) Raul” —, o espaço mantém intacta a sua alma. Cada refeição é uma viagem ao passado, onde a gastronomia tradicional serve de pretexto para escavar as raízes da nossa identidade local.
Desde que assumiu a gerência, José Alberto procurou manter a essência da taberna. Se antes o espaço funcionava mais com almoços à quinta-feira e copos de fim de tarde, o atual proprietário passou a servir almoços e jantares todos os dias, cativando tanto a população local como as gerações de emigrantes que continuam a visitar a casa. Paralelamente, conquistou um público mais jovem — antigos estudantes do liceu e da escola profissional que ali começaram a ir aos 15 ou 16 anos e que hoje regressam com as suas famílias.
Na ementa, José Alberto faz questão de manter os pratos que marcam a identidade da casa: o cozido, a dobrada, o bacalhau com grão e o popular bitoque. Sobre as transformações e obras ao longo do tempo, refere que a fisionomia e a “alma” da casa se mantiveram praticamente iguais às da reconstrução feita na década de 1960.
Quando questionado sobre as “rosas e os espinhos” da sua profissão, José Alberto é claro: a rosa é o público e o carinho dos clientes que fazem questão de voltar; o espinho são as exigentes 14 a 16 horas de trabalho diário.
A terminar o encontro, Ana André fez um balanço emocionante da visita ao espaço da sua infância: “Faço uma avaliação muito positiva, porque é um espaço que me diz muito. Ainda hoje gosto de vir aqui pela forma como sou tratada e servida e porque o Zé manteve muito do que já era habitual no tempo dos meus pais.”
Contas feitas, a vida é para saborear.
Gonçalo Cardoso


Informações sobre “Taberna Zé Raul”
Morada: Largo Professor Egas Moniz, nº5, Ourém,
Horário de funcionamento: 2.ª a 6.ª feiras (8h30-00h00) | Sábado (10h00-0h00), Domingo (10h00-12h00)
Telefone: 914 292 801

