13 de maio | Entre a dor e a esperança, há um caminho que vai dar a Fátima
Carlos e Patrícia Baião caminham movidos pela fé. Este ano, a Peregrinação de Maio trouxe consigo gratidão, intenção, promessas para cumprir e a certeza de que há sentimentos que só se entendem quando se vislumbra o “Altar do Mundo” e se dá graças a Nossa Senhora de Fátima.
CARLA PAIXÃO
A placa anuncia Fátima. Faltam ainda três quilómetros até ao Santuário, mas, para os peregrinos, aquele instante já anuncia a leveza e a emoção da chegada. Depois de cerca de 140 quilómetros percorridos a pé, desde Portalegre, Carlos Baião abranda o passo por breves segundos, olha em frente e deixa escapar um sorriso cansado. Há emoções difíceis de traduzir quando se chega tão perto do destino.
“Só quem faz esta caminhada consegue perceber aquilo que sentimos. Cada pessoa vive a fé à sua maneira. Não há palavras certas para explicar”, confidencia.
Carlos integra um grupo de peregrinos que enfrentou dias particularmente duros até chegar à Cova da Iria. A chuva, o vento e o frio acompanharam cada etapa do caminho, tornando a peregrinação mais exigente. Ainda assim, ninguém ficou para trás. “O mais importante é chegarmos todos bem e unidos. Foi difícil, houve momentos muito complicados, mas conseguimos.”
Pelo caminho, nem sempre encontraram compreensão. Carlos recorda alguns episódios que marcaram esta peregrinação, sobretudo a atitude de alguns automobilistas: “Tivemos um susto grande perto de Abrantes, com uma ambulância que entrou praticamente contra nós. E depois há pessoas que parecem não compreender o que é ser peregrino. Ainda hoje passou uma senhora por nós a reclamar sem razão nenhuma.”

Apesar das campanhas de sensibilização e do reforço anunciado para esta altura do ano, Carlos Baião admite ter sentido muito pouco a presença das autoridades durante o percurso: “Esperávamos mais apoio e mais segurança. Encontrámos poucos carros da polícia ao longo do caminho. Não se compreende.”
Mas há algo que se sobrepõe ao desgaste, às dores e aos imprevistos: a fé. É ela que, ano após ano, continua a levar Carlos até Fátima. A primeira peregrinação aconteceu há quase duas décadas, numa das fases mais marcantes da sua vida.
“A minha filha mais velha nasceu há 18 anos e foi nessa altura que comecei a vir. Desde então, faço o caminho todos os anos”, recorda.
Ao lado de Carlos segue Patrícia Baião, a esposa, emocionada ao recordar o motivo que tornou Fátima num lugar tão íntimo e especial para a família. “Ele veio pela primeira vez por minha causa. Eu estava a passar por tratamentos de fertilidade e não foram anos fáceis”, conta.
As viagens até ao Porto tornaram-se também viagens de esperança. Antes ou depois das consultas, havia sempre uma paragem obrigatória. “Parávamos sempre em Fátima. Sempre. Entrávamos no Santuário, rezávamos e seguíamos caminho. Nunca perdi a fé.”
Patrícia acredita que foi nesses momentos de recolhimento espiritual, entre orações silenciosas e pedidos guardados no coração, que encontrou força para continuar. O sonho de ser mãe acabou por concretizar-se e mudou para sempre a relação da família com Fátima. “Acredito, muito intimamente, que Nossa Senhora me ajudou. Ser mãe era o maior sonho da minha vida e a senhora concedeu-me o milagre da maternidade.”
Desde então, Carlos passou a cumprir, todos os anos, a sua caminhada de agradecimento. Para Patrícia, esta é a terceira peregrinação a pé até Fátima. Mas este ano foi diferente. Decidiu fazer a peregrinação a pé, movida por uma nova promessa. “O meu pai teve um problema de saúde grave no ano passado. Havia a hipótese de ser um tumor maligno e eu prometi que, se tudo corresse bem, vinha a pé a Fátima.”





A promessa foi cumprida quilómetro após quilómetro, entre dores nos pés, músculos pesados, noites mal dormidas e o cansaço acumulado de vários dias de caminhada. Á chegada, as lágrimas escorrem-lhe pelo rosto. Ainda assim, Patrícia acredita que há “um mistério divino” quando finalmente se alcança Fátima. “Quando chegamos, parece que desaparece tudo. As dores deixam de importar. É uma sensação impossível de explicar. Parece milagre. Talvez seja.”
Hoje, a família cresceu para além daquele primeiro milagre que tanto desejaram. Depois de a filha mais velha nascer por via dos tratamentos de fertilidade, Patrícia acabou por ter uma segunda filha de forma natural. Acredita que foi Nossa Senhora de Fátima que lhe concedeu mais uma vez a graça da maternidade. E é precisamente nesta crença que encontra uma das memórias mais bonitas da família. “A mais velha dizia que tinha pedido uma irmã à Nossa Senhora. Agora, sempre que chegamos a Fátima, brinca comigo e diz: ‘Mãe, não peças mais filhos”.
Entre promessas, agradecimentos e lágrimas, Carlos e Patrícia percorrem o caminho guiados pela fé e pela devoção a Nossa Senhora de Fátima. Um caminho muitas vezes doído, em que a esperança parece tornar mais leves os passos de quem segue, numa entrega que vai além do que a vista alcança, mas que, garantem, “o coração sente”.
Entre os dias 12 e 13 de maio, terça e quarta-feira, milhares de fiéis chegaram ao Santuário de Fátima para participar na Peregrinação Internacional Aniversária de Maio, presidida pelo patriarca de Lisboa, Rui Valério, nas celebrações que assinalam os 109 anos das aparições na Cova da Iria.

