Maria Helena Santos, a primeira e única mulher que falou, na varanda da Câmara Municipal de Ourém, no dia 1 de maio de 1974
Maria Helena Santos foi a única mulher a falar no dia 1 de maio de 1974, na varanda da Câmara Municipal de Ourém, para o povo que ali se juntou, em manifestação, para comemorar o primeiro Dia do Trabalhador, em Portugal. Sobrinha-neta do antigo administrador do concelho, Artur de Oliveira Santos, faz parte da quinta geração de uma família de progressistas que estiveram presentes desde a criação da República Portuguesa, até à luta pela liberdade e democracia do país. Ativista no Estado Novo, esteve presa, mas também foi mãe solteira num país retrógrado, onde as mulheres tinham um papel secundário.
Aurélia Madeira e Eva Gomes
Ser mulher, mãe solteira e ativista, antes da Revolução
Maria Helena Santos não se recorda já como, naquele primeiro de maio da Liberdade acabada de conquistar, foi parar à varanda da Câmara Municipal. Diz que aquele tempo foi de traumas, que procurou, sempre, esquecer. De tal forma assim foi, que os pormenores se perdem na névoa do tempo.
Lembra-se que no dia 25 de abril de 1974 estava em Lisboa e que foi a primeira dos populares, logo manhã cedo, a chegar ao Largo do Carmo. Mas é o filho, Miguel, que a acompanha na nossa conversa, e que, por incrível que possa parecer (na altura, tinha apenas quatro anos), se lembra que nesse dia estava com a avó, em Ourém, na cabeleireira e que, depois de o ouvir na rádio, foi a correr dizer-lhe que havia uma revolução em Lisboa. A cabeleireira terá mandado embora todas as clientes, algumas com o cabelo a escorrer, e ficara só com a avó e com ele, no salão, de onde terão telefonado à mãe.
O regresso a Ourém e o 1º de Maio
Maria Helena recorda-se que participou nas manifestações de abril de 74, na capital, e com o regresso do pai do exílio, acaba por vir passar o primeiro de maio a Ourém. Comunista, Maria Helena era também, desde miúda, amiga de Sérgio Ribeiro e foi este que a “empurrou” para falar ao povo que enchia o jardim fronteiriço ao antigo edifício da Câmara. O que disse foi de improviso e também já não o recorda, até porque o tempo era de euforia e os aplausos e altas vozes com as frases do momento, que se fizeram História, surgiam a cada palavra dos oradores. Pouco importava o que era dito, desde que seguisse o mote da Liberdade e da Democracia, acabadas de conquistar.

A organização da manifestação, daquele dia, esteve a cargo de uma Comissão Democrática Local e, daquela varanda, para além de Maria Helena, falaram outras figuras bem conhecidas à época e, mesmo, hoje: Tenente-Coronel José Rodrigues, Sérgio Ribeiro, Pereirinha de Morais, Ramiro Arquimedes, Aguinaldo Oliveira Santos, Artur Pereira, Rui Viera, Sepúlveda Ribeiro e Joaquim Ribeiro.
Presa aos 19 anos pela PIDE
Nessa altura, a política já não era novidade para Maria Helena. Fazia parte do movimento estudantil de 62 e em 64 chegou mesmo a ser presa em Caxias. Estivera a estudar em Londres em 62 e 63 e, lá, participou em várias manifestações onde, conta, apenas terão estado uma dezena de portugueses. Mas a sua prisão deu-se já cá. Era estudante e vivia num quarto arrendado, em Lisboa. Certa noite, ao regressar a casa, era esperada pela PIDE. Tinha 19 anos, era menor (a maioridade só se atingia aos 21 anos) e ficou presa onze dias, mas recorda que a PIDE não sabia o que fazer consigo e passavam o tempo “a passear”, entre a António Maria Cardoso (sede da PIDE/DGS) e Caxias. Mas não sofreu os tormentos que ouvimos contar aos presos políticos da época, acredita que por duas razões. Uma, porque havia sido presa pouco antes, uma jovem estudante, que não aguentara o “tratamento” e acabou com distúrbios psicológicos graves, devido à tortura por que passou, algo que não pretendiam repetir. Por outro lado, porque apesar de comunista, a sua família e ela própria, eram muito respeitadas e “choveram” pedidos de libertação e testemunhos de bom comportamento, inclusive por parte das pessoas mais ilustres de Ourém, algumas delas afetas ao regime. Aliás, Maria Helena testemunha a amizade e bom relacionamento entre as famílias, apesar das diferenças ideológicas.
Mãe solteira em 1970
Depois disso, como diz, passou a ter “alguma contenção”. Veio para Ourém e foi passar “férias” ao Olival, com as filhas de Acácio de Paiva, que também tinha exercido influência para a sua libertação.
Posteriormente iniciou a sua vida no trabalho e, com os estudos em inglês, acabou por ir trabalhar no turismo em Lisboa e, depois, no Algarve, mas apenas na época do Verão, voltando a Londres regularmente. Acaba por ser convidada para ir trabalhar nas Canárias, a tempo inteiro e aí conhece aquele que viria a ser o pai do filho. Casa, mas o casamento não é reconhecido em Portugal.
O casamento é malsucedido porque, diz, “ele era um aldrabão”, e Maria Helena regressa, grávida, a Portugal. Estávamos então em 1970, antes, portanto, da revolução, quando o papel da mulher era ainda muito minimizado. Um tempo em que à mulher da cidade de Ourém estavam destinadas apenas as lides domésticas, cuidar da família, e às das aldeias, para além das lides domésticas, tinham o duro trabalho nos campos.
Neste Portugal patriarca e anacrónico, uma mulher ser mãe solteira era algo inaceitável. Porém a nossa entrevistada, vivia numa família diferente do que era comum, ao tempo. Uma família progressista, politizada. Se o pai estava exilado, já o avô, havia sido, também, preso pelos seus ideais políticos e foi ele que a acolheu sem colocar problemas e a ajudou na criação do filho. Por outro lado, o tal respeito que herdou da família, mas que sempre soube impor na sua vida, acabou por ser razão de aceitação social. Contudo, Maria Helena, não deixa também de apontar o cuidado comportamental que tinha para que tal acontecesse. Não voltou a casar e impunha o tal respeito, através da sua forma de estar.
Ourém era “uma aldeiazinha”
Maria Helena recorda o conservadorismo de Ourém naquele tempo, razão, aliás, que a terá levado a sair, quer para estudar, quer para trabalhar, mas “nós tínhamos uma família diferente”. “Já o meu tio-avô, era republicano e lutara contra a Monarquia, o meu avô também já tinha estado preso… e as mulheres eram, digamos assim, reconhecidas”, no seio da família. Sempre sentiu vontade de sair, ir conhecer mundo, porque “achava aquilo tudo muito pequenino, muito pequenino”. Por outro lado, passava muito tempo em Leiria e, mais uma vez isso fazia com que Ourém não passasse de “uma aldeiazinha”.
Mas, também a mãe, era já uma mulher à frente do seu tempo, politizada, comunista. Maria Helena recorda que, quando o pai foi para o exílio, foi a mãe que tomou conta do negócio da família, o Café-Restaurante Avenida.
“A minha mãe foi sempre uma mulher de armas”, recorda. Conta que, após o nascimento do filho, foi ela quem a incentivou a mudar de vida: “Era muito aberta e dizia-me o que eu devia fazer, que não podia ficar em Ourém.” Recorda ainda que foi a mãe a primeira pessoa a dizer-lhe: “Tens de organizar a tua vida, aqui não fazes nada.” Com o seu apoio, acabou por sair de Ourém, enquanto a mãe ficou a cuidar do filho, Miguel. “Fui para Lisboa e comecei a trabalhar numa agência de viagens”.
Maria Helena afirma ter consciência que essa aceitação familiar também não era muito comum à época: “Mas eu tinha noção de tudo. A minha família não era uma família comum. Tive sempre noção disso. Era assim um bocado… fora da caixa, como se diz hoje”, reconhece.
Já com a vida estabilizada, leva o filho consigo para Lisboa, mas é ele quem recorda ter frequentado 17 escolas diferentes: “porque cada vez que a minha mãe mudava de trabalho, eu ia para outro bairro, para outro sítio”. Hoje percebe que a mãe “passou as passas do Algarve para lhe proporcionar os estudos”.
A política ficou, como a própria diz, “em banho-maria”, mas, quando abril nasceu, lá estava ela, na rua, de cravo na mão. Entretanto, “uma semana depois”, o pai regressa do exílio e já em Ourém, participa então, na manifestação que levou o povo para a frente da Câmara. No meio do burburinho daquele dia, recorda apenas que terá sido “empurrada pelo Sérgio [Ribeiro]” para a varanda e por ele terá sido levada a falar, com grande “nervoseira”.
Antes de ser mãe, há que ser mulher
Hoje, Maria Helena não sabe se olhar o passado lhe traz mais felicidade ou tristeza, até porque, para ela, “felicidade é uma coisa que não existe. E tristeza também não. O que me trouxe, foi mais vivências”.
Numa altura em que, para além de celebrarmos o Dia do Trabalhador, celebramos também o Dia da Mãe, quisemos saber o que Maria Helena Santos, face à sua experiência, diria hoje a uma mãe solteira.
Desde logo, não duvida que “antes, tem de ser mulher, para depois ser mãe solteira”, ou seja, tem que ser “independente, coerente com aquilo que faz e tem de ser um exemplo”. Reconhece que “não é fácil”, até porque, “a sociedade continua a ser muito machista. Pode ser que um dia destes a coisa vire, mas ainda não virou”.
“Há ainda um caminho a fazer”
Face a uma mulher da luta, oriunda de uma família em que “as mulheres viviam em Portugal e os homens estavam quase sempre presos ou exilados”, impunha-se a questão, de saber se valeu a pena. Maria Helena não hesita. “Claro que sim. Claro que valeu a pena”. Quanto aos que hoje dizem que então é que era bom, Maria Helena tem a resposta pronta: “Eu não me dou nesse meio. Não sabem o que dizem”.
Diz ainda que os valores de abril estão “muito comprimidos”, que “não houve evolução”, que “a evolução natural foi deturpada”.
Já no que toca à intervenção das mulheres, reconhece ter havido uma enorme evolução, contudo, enquanto for necessário existirem quotas, mantem-se “tudo muito restringido. Não é uma coisa natural e normal”, ou seja, “há ainda um longo caminho a fazer”.


