Tempestade emocional
Psicólogos dão orientações para recuperar do trauma
As tempestades e inundações deixam marcas visíveis no património edificado e paisagístico, mas também podem afetar profundamente a saúde emocional de quem as vivencia. O alerta é da Ordem dos Psicólogos, que publicou um guia prático com recomendações dirigidas a adultos, crianças e idosos, com o objetivo de ajudar as populações a lidar com estes impactos. Porque, muitas vezes a “tempestade emocional” persiste além da catástrofe, e é preciso vencê-la
Por Carla Paixão

Aceitar emoções e cuidar da segurança
Segundo os especialistas, é natural sentir medo, choque, tristeza ou raiva após situações extremas. “Sentir emoções intensas é uma parte da resposta natural a tempestades e inundações. Por muito dolorosas que sejam, para que diminuam, é preferível expressá-las, em vez de as ignorar ou evitar”, explicam.
A Ordem alerta ainda para a tendência de querer “resolver tudo sozinho e de uma vez”. Os psicólogos sublinham que, embora seja compreensível querer voltar rapidamente à normalidade, essa pressa pode colocar a segurança em risco. Por isso, recomendam focar-se em pequenas ações seguras, como organizar documentos essenciais ou um kit de emergência com água, alimentos não perecíveis e medicação. Reparações mais perigosas, como consertar telhados ou mexer em instalações elétricas, devem ser feitas apenas com ajuda qualificada.
Falar com outras pessoas e gerir a informação
Num contexto de trauma coletivo, é reforçada a importância de se manter o contacto com outras pessoas e procurar apoio emocional. “Escutar e falar com pessoas que passaram por situações semelhantes pode ajudar a sentir-se compreendido e apoiado”, refere o guia. Ao mesmo tempo, os psicólogos recomendam controlar a exposição a notícias sobre desastres, limitando a visualização de imagens e conteúdos que possam aumentar a ansiedade.
Retomar rotinas de autocuidado — alimentação, descanso, higiene, pausas para respirar e alongar o corpo — e pedir ajuda para retomar atividades diárias são passos essenciais para reconstruir não só casas e bens, mas também o equilíbrio emocional.
Validar os sentimentos de crianças e jovens
As crianças e os jovens podem manifestar medo, maior irritabilidade e dificuldades no sono, como pesadelos ou problemas em adormecer, bem como queixas físicas, entre dores de cabeça ou de barriga, podendo ainda ocorrer regressão a comportamentos mais infantis, como fazer birras ou urinar na cama. A Ordem dos Psicólogos aconselha os pais e cuidadores a garantirem a segurança física, supervisionar a criança, manter disponibilidade emocional e validar os seus sentimentos.
“É importante relembrar que a culpa de tempestades/inundações não é da criança. Devemos evitar responder ´não te preocupes` ou ´já viste a sorte que tens? `, pois estas respostas podem fazer com que se sinta desvalorizada ou criticada”, aconselham os especialistas.
Também é importante responder às dúvidas de forma clara, mantendo rotinas previsíveis e incentivando atividades de lazer e pequenas responsabilidades, que devolvem a sensação de normalidade e controlo: “Devemos incentivar as crianças/jovens a realizarem atividades de que gostam. Distraírem-se é bom e devolve a sensação de “normalidade”, assim como conviver com amigos, colegas ou outras crianças. Também pode ser vantajoso atribuir-lhes pequenas responsabilidades e tarefas simples que as ajudem a sentir utilidade e controlo, como ajudar em casa, apoiar vizinhos/as ou pessoas mais novas.”
Maior acompanhamento aos idosos
No caso das faixas etárias mais avançadas, deve haver uma atenção redobrada por se tratar de um grupo especialmente vulnerável e desprotegido.
“As pessoas idosas podem ficar confusas e desorientadas, ter medo de serem colocadas num lar ou perderem a sua autonomia, isolarem-se, mostrarem-se apáticas ou zangadas. A sua saúde e estabilidade mental pode piorar e levar a hospitalizações ou problemas a longo prazo”, alerta a Ordem.
Uma das principais recomendações passa por garantir contacto regular e previsível. De acordo com os técnicos, combinar um “check-in” diário, por telefone, mensagem ou visita, “ajuda a reduzir a ansiedade e a sensação de abandono”. Sempre que possível, defendem ainda a criação de alternativas para falhas de eletricidade ou de rede, como pontos de encontro seguros ou contactos de vizinhos e familiares deixados por escrito, sublinhando que “a previsibilidade é fundamental para diminuir a desorientação”.
Os especialistas consideram também essencial a definição de um plano simples de segurança e evacuação, uma vez que muitos idosos receiam que as inundações ou tempestades se repitam. Esse plano deve ser construído em conjunto e sem alarmismo, esclarecendo “para onde ir, quem contactar, como sair de casa e o que levar, como documentos, água e medicação”. Alertam que, em situações de ansiedade ou confusão, pode ser necessário repetir a informação.
A importância de assegurar uma rede de suporte é outro dos pontos evidenciados. O envolvimento de familiares, amigos, vizinhos e organizações locais permite garantir apoio nas necessidades diárias e criar espaço para conversar e compreender o que aconteceu durante e após a catástrofe.
Quando as habitações sofrem danos, há que ter igualmente atenção às questões de saúde, porque “muitas pessoas idosas perdem medicação, óculos, próteses ou outros equipamentos essenciais”. Nestas situações, deve ser garantido um acesso rápido à medicação habitual, à reposição de dispositivos de saúde e ao acompanhamento médico necessário.
Por fim, os técnicos sublinham a necessidade de manter um sentido de continuidade e identidade. Para além do restabelecimento das rotinas, recomendam o recurso a fotografias ou objetos significativos, explicando que “isso ajuda a preservar a história de vida”, bem como a manutenção de tarefas com significado, como cozinhar ou cuidar de plantas, promovendo o bem-estar e a sensação de utilidade.
Recuperação gradual e paciente
A Ordem dos Psicólogos sublinha que a recuperação emocional após tempestades e inundações é um processo gradual. Reconhecer o impacto emocional, aceitar o próprio ritmo e procurar ajuda quando necessário são passos essenciais. Como destacam os especialistas, “ter um plano para cada dia e respeitar o ritmo de recuperação é importante”, incluindo fazer o luto por perdas materiais ou emocionais.

