Sobre escrever sem muros à vista
Por Mafalda Cardoso
Elementar
Há lugares que te obrigam a parar. Um nevão numa estrada, vento que não deixa abrir a porta de casa, chuva que não avisa a sua chegada. A primeira reação talvez seja protestar. A segunda, ceder. A terceira, aprender a viver nesse compasso. É aí que percebes: o tempo nunca foi teu; sempre pertenceu à natureza.
Na Islândia, o tempo não se mede em relógios, mas em rajadas de vento, segundos sem nuvens, horas de neve. Cinco minutos de sol são suficientes para correr a terminar de pintar a cerca que ficou a meio. E quando o inverno aperta, a vida não congela: continua nos hot tubs, transformados em salas de estar aquecidas pelo próprio planeta, onde se discutem negócios, planos para o futuro, cusquices. O tempo social também se curva ao tempo natural.
(Haverá melhor cenário para tomar decisões importantes?)
Há uma dureza que molda o país, que não se visita de ânimo leve: é caro, difícil, imprevisível. Obriga a planear, a preparar, a respeitar. E talvez por isso o turismo não o tenha transformado em caricatura de si mesmo: recebe viajantes, mas nunca à custa da sua integridade. O tempo da Islândia é dela, e não de quem chega.
Entre fiordes, glaciares e campos de lava, surgem sinais de vida teimosa: ovelhas em toda a parte, corvos a sobrevoar descampados imensos, casas solitárias em encostas impossíveis. Pergunto-me como se vive ali. Como se vai às compras? O que se faz numa emergência? Como se recebe correio? Talvez esta seja a maior lição: viver em sintonia com o território nunca é simples; mas é-nos devolvido em beleza o que nos é exigido em resiliência.
No meio desta escala percebo a minha pequenez. Sou um grão na imensidão do mundo, onde nada se repete: cada quilómetro traz uma nova paisagem, um novo som, uma nova coragem. Não há rotina possível. Viver num lugar onde tudo se transforma a cada instante molda a personalidade de quem lá cresce. E a mim trouxe-me uma liberdade que espero deixar ecoar: se nada é garantido, tudo pode ser experimentado. Posso falhar, tentar de novo, arriscar.
A Islândia lembra-me que ser pequena é também ter espaço infinito para descobrir coisas gigantes todos os dias. Que é possível viver em profunda sintonia com os elementos – como faziam os nossos avós. Que os laços crescem na intimidade de uma aurora boreal, de um banho quente num riacho, do vento que nos levanta no topo de uma montanha, da cortina de cascata através da qual se vê o mundo.
Tudo o que quero ser é forte e pacífica como a Islândia: aceitar a beleza e a dureza como faces da mesma moeda.
Porque no fim, o tempo, tal como a natureza, nunca é nosso. E tudo à nossa volta — e dentro de nós — está sempre a transformar-se.
“A Islândia lembra-me que ser pequena é também ter espaço infinito para descobrir coisas gigantes todos os dias. Que é possível viver em profunda sintonia com os elementos – como faziam os nossos avós. Que os laços crescem na intimidade de uma aurora boreal (…)”

