E quem emigrou sem querer? 

Capítulo XVII 

Pai, 

Já passou um ano desde que regressei, e sinto-me já longe de onde vivi a vida toda. Esta sempre foi, na verdade, a minha casa. Eu e a Rita começámos a namorar. A vida passou e as pessoas passaram por nós. Ainda tenho muitas saudades tuas, mas também já te sei levar de outra maneira cá dentro.  

Refleti sobre mim e sobre todos nós, emigrantes, que fomos. Pensei nos que voltaram, pensei nos que ficaram lá. Debrucei-me sobre tudo isto e tudo isto me fez pensar no quão sortudo sou por ter tido a coragem de ter regressado. Posso dizer, com todas as certezas a partir de hoje, que sou feliz. 

A Rita, enfermeira acabada de sair da universidade, mal pode esperar por ir embora. Não a condeno, mas tento mostrar-lhe que aqui é casa, que aqui estamos bem, que é aqui a vida. Agora e aqui mesmo. Somos demasiado pouco para querer ser tanto. Basta ser muito no pouco que somos para sermos importantes para quem faz parte da nossa vida. Se ela quiser ir, no entanto, não a posso proibir, mas sei, conhecendo-a, que voltará depressa. Porque ela sabe, tão bem como eu, que a casa dela é perto de quem cuida. É onde nos sentimos plenos, distantes de amarguras, de incompatibilidades, de tristezas alheias. 

Admito, claro, que também há pessoas que emigram e que lá também são felizes. Conheci uns poucos. Poucos que o fossem verdadeiramente. Sei que ela não é desses casos. É demasiado próxima da vida. Do aqui e do agora.  

Obrigado por me teres ensinado tudo o que sei sobre o significado de casa. É diferente para todos nós. Para mim e para ti era igual. Que os emigrantes que emigraram sem querer, como eu, regressem onde são felizes, que aqueles que o ambicionam também, que aqueles que não o ambicionam, não regressem se não quiserem. Mas acima de tudo, que não tenham medo. Arrisquem a oportunidade de um dia conseguir regressar, de um dia pôr os pés nesta terra e abraçar o sopro desvairado da serra a bater-nos na cara. 

Estas cartas, mais do que para ti, são para eles. Que lhes digam algo, nem que seja apenas numa curta frase das tantas que te escrevi. 

Do Afonso, que emigrou sem querer, mas que voltou para casa