O Rito: Onde a Comida Nos Faz Sentir em Casa 

Da “molhanga” das avós ao divinal tacho de garoupa, uma mesa onde a gastronomia tradicional se partilha em família. 

Puxe a cadeira e sente-se connosco à mesa do Restaurante ‘O Rito’, no Alqueidão (Ourém), onde as portas se abrem desde 1974.  

Fundado pelo casal Amélia e Joaquim Rito, o espaço enfrentou há perto de dez anos a incerteza com a partida de Joaquim. No entanto, a paixão de Dona Amélia, hoje com 80 anos, falou mais alto. Recusou ficar parada, uniu forças ao filho Bruno, de 49 anos, que desde miúdo começou ali a trabalhar nas férias escolares, e reabriram o espaço, após uma remodelação, preservando a alma e a identidade da casa. Essa identidade é visível nos azulejos dos anos 70, nas coleções de rádios e nos relógios de parede que marcam o compasso do tempo.  

À mesa, o meu convidado é António Carlos Silva, contabilista, figura bem conhecida no associativismo e desporto local. Apaixonado por Ourém, partilha nas redes sociais os monumentos e as paisagens que descobre nas suas longas e frequentes caminhadas. Mas se o procurar por este nome, dificilmente o encontrará: todos o conhecem pela alcunha herdada do pai, o “Vareta”, cujo epíteto a origem desconhece. 

A molhanga

Começámos com um tinto ‘Conde de Ourém’, perfeito para acompanhar a “molhanga” ou “tomatada”. Esta receita das avós de Bruno, típica da época do tomate, combina azeite, pão e a frescura do legume, despertando memórias antigas. Seguiu-se um divinal caldo de garoupa com massa de cotovelinhos e ovos de coentrada, servido com pompa num tacho envolto numa “saia” de retalhos de tecido, num feliz resgate da tradição. Segundo Bruno: “Os clientes elogiam de tudo um pouco: a comida bem confecionada, o ambiente familiar e a decoração”. 

Questionada sobre como a cozinha entrou na sua vida, Dona Amélia recorda os tempos de emigração em França e o regresso a Portugal, onde trabalhou dois anos no restaurante “O Palheiro”, também no Alqueidão. Ali ganhou o gosto e, há 51 anos, nunca mais “largou os tachos”. Embora o caldo de garoupa, a boa carne, as espetadas e o arroz de grelos dominem os elogios, a cozinheira confessa não ter preferências: “Eu gosto de cozinhar. É a minha grande paixão. Não encontraria outra profissão melhor”. 

Essa paixão comprovou-se no prato seguinte: espetadas à moda da Madeira acompanhadas por um maravilhoso arroz de grelos. Para o remate final, uma sobremesa soberba: bolo de noz confecionado sem farinha, apenas com o miolo de noz, encimado por uma rica cobertura de doce de ovos. 

Na visão de “Vareta”, o “Rito” distingue-se claramente: “Pela qualidade da comida tradicional e pelo atendimento sempre simpático. O espaço também marca, é acolhedor”.  

Corroboro cada palavra. O “Rito” tem o dom raro de reter a alma e o conforto, fazendo-nos sentir em casa através de uma gastronomia que conforta o corpo e a memória. 

Contas feitas, a vida é para saborear! 

Gonçalo Cardoso 

Esta reportagem integra a rúbrica “O Prato da Casa”, desenvolvida em parceria com a ABC Portugal. Ouça a reportagem completa e os bastidores desta visita em 92.3 FM ou em www.abcportugal.pt

Informações sobre “O Rito”

Morada: Estrada principal, 2, Alqueidão – 2490-202 – Ourém 

Horário de funcionamento: De terça-feira a sábado (12h00-15h00 | 19h00- 22h00) 

Contactos 

Telefone: 249 542 841 

E.mail: restauranteorito@gmail.com