O olhar do presidente da Câmara de Ourém, Luís Miguel Albuquerque 

40 dias depois da tempestade 

Quarenta dias depois da tempestade Kristin ter devastado o concelho de Ourém, o presidente da Câmara, Luís Miguel Albuquerque, recorda os primeiros momentos de caos, a organização da resposta municipal e os desafios de gerir uma crise sem precedentes. Entre estradas bloqueadas, comunicações cortadas e famílias isoladas ou desalojadas, o autarca expõe, nesta entrevista, as vulnerabilidades do concelho face a fenómenos extremos, mas também a resiliência e a força da população oureense. Sem disfarçar, ainda assim, o sentimento de abandono e isolamento perante a ausência inicial de respostas por parte de entidades cuja presença era esperada desde o primeiro “grito de socorro”, mas que tardaram em chegar ao território. Agora, sublinha, é tempo de olhar para o futuro e reerguer Ourém. 

CARLA PAIXÃO 

Presidente, 40 dias depois, que memória guarda da madrugada do dia 28 de janeiro? Quando é que o telefone tocou e como é que viveu aqueles primeiros momentos? 

Quando acordei, às cinco da manhã, não tive imediatamente noção da dimensão do que poderia estar a acontecer. Em minha casa também houve alguns estragos, mas durante a noite não percebi a gravidade da situação. Fui alertado por telefone, por volta das seis da manhã. Quando tentei sair de casa, não consegui. Dei com uma árvore de grande porte caída em cima do muro do meu vizinho. Os acessos estavam completamente obstruídos. Para ter uma ideia, só consegui sair a pé, não era possível passar de carro, tive de saltar por cima de troncos, eucaliptos e pinheiros.  Consegui algo raro naquele dia, contactar a Proteção Civil. Vieram buscar-me e começaram a desobstruir a rua. Só para abrir a minha estrada demoraram cerca de três horas. Foi a partir daí, quando saí de casa, que comecei a perceber melhor o que estava a acontecer no concelho, e que a situação era dramática. 

Entretanto, começam a chegar os pedidos de apoio… 

Não chegaram de imediato. Muitas pessoas não conseguiam sair de casa, estavam isoladas, e as comunicações estavam quase todas cortadas. Nos primeiros momentos, organizámos a resposta através da Proteção Civil, dos bombeiros e do rádio, através do SIRESP. A nossa prioridade foi garantir que as estradas principais e secundárias fossem desobstruídas, permitindo que as pessoas pudessem circular. Porque nem as pessoas conseguiam chegar até nós, nem o socorro conseguia chegar até elas. 

Nem sequer o contacto com os presidentes de Junta, que estão mais próximos das populações, foi possível de imediato? 

Não, de forma alguma. Com alguns presidentes de junta só conseguimos falar dois ou três dias depois. Estávamos a organizar briefings e reuniões, mas não conseguíamos informar todos a tempo. Houve presidentes que só apareceram ao fim de três ou quatro dias. Estavam completamente isolados e concentrados em resolver os problemas nas suas freguesias. Não conseguiam chegar até nós, e também não era possível chegarmos até eles rapidamente.  

Então, durante esses primeiros dias, não houve uma articulação direta com todas as juntas?  

Não. Cada freguesia teve de agir de forma independente. Depois, os nossos serviços, juntamente com os bombeiros, começaram a ir aos locais recolher informações. E nós transmitíamos instruções pelo rádio, para que as juntas de freguesia pudessem contratar empresas locais e apoiar na desobstrução dos caminhos. Foi assim que iniciámos o trabalho, enquanto ainda não havia uma coordenação completa. A organização estruturada só começou no segundo dia. E, a partir daí, já conseguimos dar uma resposta mais rápida. 

Se tivesse de fazer uma “fotografia” do concelho nas duas primeiras semanas após a tempestade, que imagem descreveria? 

Uma imagem dramática. Só quem viveu aqueles dias em Ourém consegue realmente perceber a dimensão da destruição. É simplesmente inimaginável. Muitas pessoas, nos seus locais de trabalho em Lisboa, Porto, Leiria ou noutros pontos, não tinham qualquer ideia do que se estava a passar em Ourém. Recordo-me perfeitamente de um responsável de uma empresa de telecomunicações que veio de Leiria. Quando chegou, olhou à volta e disse: “Resolvemos isto em dois dias.” Foi verificar com os próprios olhos e, três horas depois, voltou e disse: “Presidente, nem daqui a dois meses conseguimos repor tudo.” É algo sem precedentes, simplesmente inimaginável. A real dimensão do problema só começou a ser percebida graças, em grande parte, aos órgãos de comunicação social, que divulgaram imagens e declarações minhas mais acesas. Foi então que se percebeu que não se tratava apenas de Leiria, Marinha Grande ou outros concelhos. Ourém estava igual ou até pior. Muitas famílias passaram semanas sem eletricidade e, mesmo 40 dias depois, ainda há situações de falta de energia e falhas nas comunicações. 

Entrevista completa no Notícias de Ourém de 13 de março de 2026