Dia Internacional da Mulher | Elas na Liderança

Mulheres à frente das Freguesias

A propósito do Dia Internacional da Mulher, assinalado a 8 de março, numa altura em que, temas como a igualdade e a participação cívica continuam no centro do debate público, o Notícias de Ourém dá voz a três autarcas do concelho oureense onde a liderança é feminina: Ângela Marques, em Seiça, Dulce Mateus, em Espite, e Engrácia Carriço, em Alburitel. 

A partir de um guião comum, as presidentes de Junta refletem sobre o significado do Dia Internacional da Mulher, os desafios que persistem no plano profissional e familiar, a gestão de crises e o papel das autarquias na promoção de uma sociedade mais justa e igualitária. 

O resultado é um conjunto de testemunhos que revela percursos distintos, visões próprias e uma ideia comum: a liderança constrói-se pela competência e pelo compromisso diário com a comunidade, mais do que no género de quem ocupa o cargo.

Engrácia Carriço, Presidente da Junta de Freguesia de Alburitel

Liderança e proximidade: reflexões sobre a igualdade 

Para mim, o Dia Internacional da Mulher guarda um profundo significado histórico: é o momento de honrar as mulheres que, em contextos profundamente adversos, lutaram pelos direitos de que hoje usufruímos. 

Acredito que uma das formas mais persistentes de discriminação reside na desvalorização sistemática — tanto por homens como por mulheres — dos papéis tradicionalmente imputados ao feminino. Ao olharmos com condescendência para essas funções, desvalorizamos o legado fundamental das nossas mães e avós. Num mundo rural e tantas vezes privado de consciência política formal, estas mulheres definiram um caminho próprio: foram o pilar absoluto da vida familiar e social, gerindo escassez e afetos com uma mestria silenciosa. Em contextos de adversidade extrema, foram elas que garantiram a coesão da comunidade e construíram, a pulso, o futuro melhor de que hoje usufruímos. Relegar a sua história para segundo plano é afirmar que a História só é contada no masculino. Reconhecer a sua força não é romantizar o passado, é validar uma liderança informal que é o alicerce da nossa sociedade. 

Contudo, esta herança trouxe consigo novos desafios. Atualmente, a maior barreira reside na dificuldade em conciliar a vida profissional, familiar e social. Embora as mulheres tenham conquistado os seus percursos, continua a ser-lhes exigido um “pacote” de perfeição estética e comportamental — a missão de serem mães, filhas e esposas impecáveis, tudo sob uma pressão constante. 

Idealizo um mundo onde o facto de uma mulher ocupar um cargo de liderança, habitualmente destinado a homens, não seja notícia, mas sim a norma

Na minha prática, recuso a dicotomia homem/mulher. Acredito que enquanto alimentarmos esta diferenciação, persistirão discursos marginalizadores. Por isso, a minha ação centra-se nas pessoas, na individualidade de cada um, mas principalmente na comunidade. Gosto de trabalhar para o indivíduo como um todo, respeitando as suas especificidades acima de qualquer género. 

Liderança no feminino? Sim, há diferenciação, porque, a minha história de vida moldou-me para a construção de uma narrativa diferente da narrativa os meus pares masculinos. No entanto, essa singularidade não é exclusiva das mulheres: cada líder é fruto de um percurso único que o moldou. A verdadeira diferença reside na minha individualidade. 

Como qualquer mulher em cargos de decisão, enfrentei desafios pelo simples facto de ser mulher. Não sou exceção. Superei-os da única forma que conheço: com profissionalismo inabalável e indiferença perante o preconceito. 

Esta resiliência foi posta à prova recentemente. O último mês, marcado pelos desafios da tempestade Kristin, foi particularmente exigente, e os próximos tempos não serão diferentes. Perante cenários de crise, a questão da “sensibilidade feminina” torna-se secundária perante a necessidade de uma humanidade na gestão.  

Na minha ótica, a resposta não reside no género, mas na humanidade da gestão. Em momentos de pressão extrema, o que verdadeiramente faz a diferença é a capacidade de resiliência, a agilidade na tomada de decisão e a empatia para com as equipas e as populações afetadas. 

Mais do que uma “sensibilidade feminina” abstrata, acredito numa liderança presente. Se a minha experiência como mulher me trouxe uma capacidade acrescida de multitarefa ou uma leitura mais atenta das necessidades alheias, isso é uma ferramenta valiosa. No entanto, o que me permitiu atravessar a crise da Kristin foi o equilíbrio entre a firmeza necessária para agir e a sensibilidade para compreender o impacto humano da tempestade. 

As crises não escolhem o género de quem as resolve; exigem, sim, líderes — homens ou mulheres — que saibam transformar a vulnerabilidade do momento em estratégia e ação. Por isso, nestes próximos meses de reconstrução e desafio, continuarei a pautar-me pela mesma premissa: focar no indivíduo, na comunidade, agir com profissionalismo e liderar com a força que a minha história pessoal me conferiu. 

Apesar de todas as mudanças, o que ainda falta conquistar em termos de igualdade é, acima de tudo, a liberdade de escolha sem penalização. Falta garantir que a parentalidade não seja um travão na carreira, que o acesso a lugares de decisão seja puramente meritocrático e que a partilha de cuidados familiares seja uma realidade estrutural e não apenas um desejo teórico. Falta, no fundo, que a estrutura da sociedade se adapte à realidade da vida das pessoas, e não o contrário. 

Neste cenário, as autarquias locais desempenham um papel absolutamente central. Sendo o patamar da administração pública mais próximo do cidadão, as autarquias são os laboratórios privilegiados para esta transformação. 

A igualdade não se decreta apenas em leis nacionais; constrói-se nas ruas, nas comunidades e nas decisões do dia a dia. É através desta gestão de proximidade que podemos garantir que cada indivíduo, independentemente do género, tem as condições reais para atingir o seu pleno potencial. 

O meu conselho para as mulheres: não tentem mimetizar modelos masculinos apenas para se integrarem. Sejam autênticas. Cultivem a competência técnica, mas confiem na vossa intuição e na vossa história de vida. Não permitam que o mundo vos defina pelo género; definam-se pelo vosso trabalho e caráter. 

O sucesso da igualdade será o dia em que a liderança feminina for um facto consumado e não um título de jornal, e que a história individual prevaleça, finalmente, sobre os estereótipos. 

NOTA DE REDAÇÃO

Alertamos os nossos leitores para o erro de paginação deste trabalho na edição imprensa do jornal Notícias de Ourém de 06 de março de 2026, que desde já lamentamos. O nosso pedido de desculpas a todas as intervenientes.