“É tempo de arregaçar as mangas”
Formigais: a tempestade, as cheias e a força de uma aldeia
No último domingo, o Notícias de Ourém visitou Formigais e falou com a população sobre os desafios das últimas semanas. Tempestade e cheias deixaram a aldeia isolada e causaram estragos. Entre lama e destroços, encontrámos uma comunidade resiliente e determinada, pronta para reconstruir e resgatar as vivências da aldeia
CARLA PAIXÃO
Nas últimas semanas, a pequena aldeia de Formigais, no concelho de Ourém, viu desvanecer a tranquilidade habitual da povoação, graças à força da natureza, que fez soprar ventos fortes e chuvas sem piedade. Os prejuízos acumulam-se e permanecem difíceis de quantificar, mas entre os habitantes daquele lugar há uma ideia comum. Mais penoso do que os danos materiais foi enfrentar o afastamento, a escuridão e o silêncio. A ausência prolongada de luz e de comunicações não só perturbou rotinas, como acentuou a sensação de isolamento.
No domingo, 15 de fevereiro, dia tradicionalmente marcado pela missa das onze e pelo convívio aguçado pelo petisco no fim da homilia, a paisagem ainda espelhava a destruição causada pela tempestade e pelas cheias. Estradas cobertas de lama, detritos acumulados nas bermas e casas cercadas pela água compunham um cenário pouco habitual, mesmo para uma população já familiarizada com os caprichos do inverno.

A violência dos fenómenos extremos desenhou uma sucessão de dias difíceis e cansativos. Primeiro, o vento impetuoso associado à tempestade Kristin rasgou telhados, derrubou árvores e impediu acessos. Depois, a chuva persistente fez subir as águas do Agroal, que galgaram as margens, envolvendo a aldeia numa espécie de cerco silencioso. Se as cheias não são novidade por estas paragens, os moradores insistem que, desta vez, a duração e a intensidade ultrapassaram qualquer memória recente. “Nunca se viu nada assim”, dizem.
Os danos espalharam-se pela povoação. Telhas arrancadas, chaminés destruídas, água dentro de casas, campos submersos, hortas perdidas, falhas prolongadas de eletricidade e comunicações intermitentes tornaram-se parte de um quotidiano que desvendou fragilidades. Nem a igreja escapou à força da natureza.
“O vento foi devastador, pior que as cheias”
Antes de chegarmos ao coração da aldeia, na localidade vizinha, Soalheira (Rio de Couros), Sónia Graça, proprietária do café “Canto da Amizade”, descrevia-nos o impacto das últimas semanas com uma mistura de cansaço e incredulidade. “Foram dias muito duros. Acredito que o vento tenha sido o mais destrutivo. A chuva agravou tudo, mas o vento foi verdadeiramente devastador. Não me lembro de ver algo assim.”

A persistência da precipitação prolongou o estado de alerta e os receios das gentes da terra. “Já houve anos em que a água subiu bastante, mas eram episódios breves. Desta vez, a água manteve-se durante dias, sem recuar.” A circulação tornou-se incerta, quase sempre dependente de desvios. “Muitas passagens ficaram impraticáveis. Houve quem arriscasse e acabasse por ficar com os carros dentro de água. Tem sido muito complicado. Porque as pessoas têm de continuar com as suas vidas e não podem”, desabafava Sónia.
Com tantos entraves, o impacto económico fez-se sentir com rapidez. “O ambiente entre as pessoas é de desânimo. Tem sido muito duro. Passam por aqui muitos trabalhadores da construção. Um deles dizia-me que este mês, nem 300 euros devia fazer”, conta Sónia. A própria, sente as dificuldades na pele. Também o funcionamento do seu café foi condicionado pelas circunstâncias. “Nos primeiros dias estive fechada. Entrou água e não tinha luz. Trabalhar com gerador implica custos muito elevados. Era quase pagar para manter a porta aberta. Agora, abrimos, mas ainda há muito para limpar. Tem sido duro”, lamenta.
“Creio que ninguém ficou esquecido”
Já em Formigais, junto ao adro da Igreja, o sentimento coletivo oscilava entre a exaustão e a determinação. O padre Luís Ferreira sublinhava a dimensão dos acontecimentos, descrevendo “uma situação difícil, uma coisa atrás da outra”. Primeiro a tempestade, depois as chuvas, que, embora habituais na região, desta vez provocaram “consequências bem mais complicadas”, deixando o edifício da igreja “muito danificado” e o interior “bastante afetado”.
Para lá dos estragos materiais, sublinha o pároco, foi a reação da população que mais o sensibilizou. Após o susto inicial, afirma que os habitantes “não aceitaram bem, porque não é fácil aceitar, mas serenaram-se”. Segundo o sacerdote, instalou-se uma espécie de tomada de consciência comunitária, em que as pessoas reconheceram “a nossa fragilidade” e a noção de que “não dominamos tudo”.
Apesar da intensidade das cheias, o pároco destaca “uma serenidade muito significativa” na população, considerando-a essencial para que a comunidade consiga “seguir em frente, reconstruir, dar o passo seguinte”. Nas celebrações religiosas tem procurado reforçar esse espírito: “Não se trata apenas de aceitar resignadamente, mas de compreender.”
O padre Luís enaltece ainda o “espírito de entreajuda e solidariedade absolutamente notável” demonstrado pelos habitantes. Conta ter testemunhado vizinhos a ajudarem-se mutuamente, por vezes em situações de risco, num “verdadeiro sentido de comunidade”. “Creio que ninguém ficou esquecido”, acrescenta, referindo visitas e gestos de apoio dirigidos sobretudo às pessoas mais isoladas ou mais fragilizadas socialmente.
Quanto ao impacto emocional, reconhece que existem “angústias e inquietações”, mas não sentiu um movimento generalizado de revolta. Recorda, contudo, um gesto que o tocou particularmente: numa celebração, uma idosa entregou uma pequena oferta “para agradecer a Deus, não obstante tudo o que aconteceu”.
Para o sacerdote, a fase que agora se inicia exige uma dupla recuperação. “Não apenas a dimensão física, com os arranjos necessários, mas também a dimensão interior.” Porque, conclui, “os estragos não são apenas visíveis nas paredes, são também silenciosos, dentro das pessoas”.
“Era só água e vidros espalhados por todo o lado”
Filomena, que todas as semanas está encarregue da limpeza da Igreja da aldeia, é testemunha disso mesmo. Quase três semanas passadas, ainda se comove a falar do cenário que encontrou após a tempestade ter “massacrado” aquele lugar de culto.
“Estes dias têm sido muito difíceis. A igreja sofreu bastante”, conta-nos à saída da missa. Quando se deslocou ao local para iniciar a limpeza, deparou-se com uma imagem que descreve como “profundamente triste”. A água cobria o interior da igreja “de uma ponta à outra, porque se partiram umas telhas” e o chão estava cheio por estilhaços de vidro, consequência de uma janela e de um vitral destruídos pelo mau tempo. “Era só água e vidros espalhados por todo o lado, nem me quero lembrar”.
Perante a dimensão dos estragos, admite ter sentido o peso da tarefa. Naquele momento, diz, questionou-se sobre como conseguiria, sozinha, devolver condições ao espaço. A sensação de impotência levou-a a recuar. Já a caminho de casa, encontrou o sacristão, Manuel, a quem pediu que alertasse os párocos. A igreja “não tinha condições” e a celebração da missa tornava-se impossível, por questões de segurança. Nesse fim de semana, os fiéis foram à missa da Freixianda.
Entretanto, iniciou-se um trabalho coletivo de recuperação. Limparam-se os vidros e os destroços, e reparou-se o telhado da igreja. “Tivemos também a ajuda de uns rapazes que aqui apareceram e foram extraordinários”, afirma, referindo-se ao grupo que, com o auxílio de uma grua, recolocou as telhas arrancadas pelo vento. Sem essa intervenção, “continuaria a chover no interior da igreja e estragava-se o resto”, explica Filomena.
Apesar dos avanços, persistem limitações. Os vitrais continuam por reparar e, sempre que a chuva surge acompanhada de vento, a água volta a entrar. Por precaução, algumas zonas permanecem interditas, devido ao risco de queda do forro.
“Tenho a vida virada do avesso”
No largo da Igreja, Sérgio Pereira, comerciante de frutas e legumes, montava a banca para mais um dia de venda quando falou sobre os estragos causados pela tempestade. “Tenho a vida um bocadinho virada do avesso”, desabafa.
Sérgio conta-nos que perdeu praticamente tudo: a banca, os telhados, os alpendres, os eletrodomésticos. “Para quem vive deste pequeno negócio, construído pouco a pouco, é devastador. Tive de começar do zero, porque foi tudo água abaixo. É muito difícil para quem depende de um trabalho assim, modesto”.
Apesar das perdas, garante, encontrou generosidade e solidariedade. Alguém lhe ofereceu uma máquina de lavar roupa, outro um frigorífico. “Não é apenas o valor material, é o sentir que não estamos sozinhos”, acrescentou, emocionado.
O comerciante salientou também o carinho dos habitantes de Formigais. “As pessoas têm sido muito humanas. Aproximam-se, compram, conversam, apoiam. É graças a essa proximidade que vamos sobrevivendo, um dia de cada vez”, contou-nos.
Sérgio reconhece que a comunidade valoriza a sua presença, mas admite que chegar à aldeia nas últimas semanas tem sido um desafio: “Com estradas cortadas e zonas isoladas, tem sido complicado, tanto para quem vive aqui como para quem tenta chegar.” Mesmo assim, garante que não podia deixar de vir: “Preciso de trabalhar, e as pessoas agradecem muito que eu venha.”
Sobre expetativas para o futuro do negócio, não tem, diz que é “um dia de cada vez”. E, em relação à venda de domingo, é pragmático: “Que me permita continuar. Que me dê algum fôlego para repor o que falta, comprar o que é necessário e pagar as despesas. É essa luta diária que agora faz parte da nossa vida.”
“O pão não pode faltar”
Poucos minutos antes do final da missa de domingo, chega a Formigais André Valente, o padeiro que há décadas não falha um dia de trabalho, mesmo nos momentos mais difíceis. Estaciona a carrinha no largo da igreja para vender pão fresco à comunidade, mantendo uma rotina que cumpre há mais de 50 anos.
Falámos com ele enquanto organizava os pães na carrinha, e André contou que os últimos tempos têm sido particularmente desafiantes. “À chegada ao meio da estrada, tenho de voltar para trás por causa das cheias. Depois faço a volta pelo alto, saio por esta estrada abaixo e só então consigo vender o pão. De outro modo, não se podia passar”, explicou. Apesar do susto e das dificuldades, nunca se rendeu. “Estive todos os dias. Até no dia em que veio o vento, eu trabalhei. Foi um trabalho importante para as pessoas”, lembrou, referindo o momento em que quase perdeu o pão ao abrir a porta da carrinha: “Mal abri a porta de lado, ficou logo virada ao contrário. Eram cinco e um quarto da manhã. Tinha de chegar às pessoas”.
O padeiro percebeu rapidamente a importância da sua presença para a comunidade. Pelo caminho, sentia o reconhecimento das pessoas: “Ganhei muito cliente. Percebi que era importante vir todos os dias.” Para além disso, André Valente faz notar a importância do compromisso para com a comunidade: “Tenho de ser um suporte, quando os outros faltam, o Valente está cá.” Apesar de a tempestade lhe ter afetado o negócio, André mantém a determinação: “É um serviço muito preciso, porque para as pessoas o pão é essencial. E mesmo com chuva ou vento, não podia deixar de vir”, reforça, enquanto se prepara para seguir caminho e entregar o pão para o petisco já habitual que decorre atrás da igreja.
Entre os presentes, percebe-se o conformismo. Dizem que é tempo de arregaçar as mangas, limpar, reconstruir e seguir em frente. O sol voltou a brilhar, oferecendo um breve alívio. Mas, foi de pouca dura e houve quem pedisse a ajuda divina. “Que Deus nos ampare e nos conceda mais uns dias de sol, sem chuva, que do resto nós damos conta”, pediu Filomena.

