E quem emigrou sem querer?
Capítulo XVI
Querido pai,
Estou de regresso.
Finalmente regresso ao inevitável papel branco para ti. Sabes como envio as cartas que te tenho escrito? Deixo-as na nossa antiga caixa do correio, da casa em França. Arranjei maneira de a trazer para Portugal na altura em que regressei e agora tenho-a dentro do barracão no quintal. Além de ser um ótimo sítio para guardar cartas, também é mais do que um sítio, é simbólica. Tem uma boa carga emocional.
Sei que demorei a voltar a escrever-te, deixei para o verão, mas é no verão que me lembro mais de ti. Era nesta altura que regressávamos a Portugal. Eram os melhores meses do ano. Dos únicos que guardo memórias verdadeiramente importantes para mim e para a minha vida. E agora vejo tantos a virem nessas condições, visitarem o país como viajantes efémeros, intermediários, temporários. Vem e vão, mesma volta de sempre, cansada e sem risco. Agora que vejo, não me parece uma volta tão incrível como aquela que nós fazíamos sempre. Talvez as motivações deles também não sejam as mesmas que as tuas naquela altura, tu tinhas sempre aquele amor verdadeiro pelo tempo em que cá vínhamos. Aliás, ansiavas por te mudares finalmente, pouco antes de não o poderes fazer.
Mas sabes? Não consigo deixar de pensar que estes emigrantes que vêm, mesmo que não demonstrem a paixão pela terra no primeiro olhar que nos lançam nas mais banais conversas, não sintam a mesma melancolia que eu sentia na hora de me ir deitar, em que pensava estar a menos um dia de ter de me ir embora. Não consigo aceitar o facto de eles acharem que isto é só mais uma visita e que a vida é lá para depois ser cá. Que é isso de adiar a vida? Eles não pensam realmente assim, parece apenas. Têm um olhar exausto, apressado, quase longínquo. Estão longe, mas estão tão perto, quase palpáveis na ponta dos dedos metafísicos das nossas capacidades mentais. Das deles. Querem vir, mas não sabem como, têm remos, mas não sabem remar. Só sabem remar no lago, não enfrentam o rio, que é a descer, para chegar ao mar, que é imenso. Venham, que o mar é mais belo, mais sonhado, mais próximo do alcance da impossibilidade dos desejos e sonhos.
É aqui que está o mar, junto de mim, o meu pai já sabia, saberás tu também?
Do Afonso
