Da ti’Mília às crianças de hoje: a escola que cabe em todos nós

Por Ana Freire

Com setembro chegam as mochilas às costas, os horários colados no frigorífico e a azáfama das papelarias. Mas este mês, mais do que datas e cadernos, lembra-nos que aprender é uma viagem que não tem idade.

O início de setembro traz sempre consigo um certo recomeço.

É mais do que o virar de uma página do calendário: é a preparação de cadernos novos, de mochilas arrumadas e de sonhos embrulhados em expectativas. Pais e encarregados de educação fazem contas, percorrem corredores de papelarias em busca do lápis certo, da mochila desejada, da paleta de cores que, acreditam, fará nascer o gosto pelo estudo.

Alunos anseiam por conhecer os novos colegas e trocam mensagens de alegria ou de frustração ao conhecer o novo horário.

Professores e educadores reencontram-se, trocando entre si votos de “bom ano”, conscientes de que os próximos meses serão de desafios, mas também de descobertas.

No fundo, todos nós — mesmo já afastados das salas de aula — sentimos esse sopro de novidade em cada criança e em cada jovem de mochila às costas.

Setembro tem cheiro a oportunidade.

É como se a vida nos dissesse: ainda há tempo para aprender, para recomeçar, para tentar outra vez.

Lembro-me das primeiras letras da ti’Mília, de quem já vos falei noutras ocasiões.

Nos anos 90, quando se multiplicavam as iniciativas de alfabetização, decidiu, já com cabelos brancos e mãos marcadas pelo trabalho do campo, sentar-se numa carteira da escola de Rio de Couros.

Nunca vi ninguém tão feliz por ir para a escola.

Segurava o lápis com um cuidado quase cerimonioso, desenhando as primeiras letras como se fossem obras de arte. Mostrava-me, orgulhosa, os seus “trabalhos de casa”, traçados com esforço, mas iluminados por uma alegria que lhe brilhava no olhar.

Dizia-me muitas vezes:

— Ó Aninha, vais ver! Vou aprender e vou saber ler as histórias que me contas sobre as estrelas.

Uma senhora simples, de uma grandeza imensa, que nos lembra que nunca é tarde para querer saber mais.

A aproximação (demasiado rápida) de setembro é o lembrete de que aprender é um caminho sem fim, e a curiosidade é o que nos mantém vivos e despertos para o mundo.

Hoje, vejo o reflexo da ti’Mília em muitas outras pessoas — jovens ou menos jovens — que, em setembro, carregam não só mochilas, mas também a esperança de crescer.

“Setembro tem cheiro a oportunidade. É como se a vida nos dissesse: ainda há tempo para aprender, para recomeçar, para tentar outra vez”